Os EUA já começaram a deslocar partes do seu sistema de defesa antimísseis instalado na Coreia do Sul para o Médio Oriente, numa operação destinada a reforçar a proteção das bases norte-americanas e dos seus aliados naquela região, num momento em que o conflito com o Irão aumenta o risco de ataques com mísseis e drones.
A redistribuição envolve componentes do sistema de defesa antiaérea de ata altitude THAAD (Terminal High Altitude Area Defense) e algumas baterias Patriot, dispositivos que até agora estavam posicionados na península coreana como parte da arquitetura de defesa contra a Coreia do Norte. O movimento foi inicialmente revelado por meios de comunicação sul-coreanos, que publicaram imagens do desmantelamento de equipamentos, e posteriormente confirmado por informações divulgadas pela imprensa norte-americana.
Embora Washington assegure que o compromisso com a defesa da Coreia do Sul permanece inalterado, a decisão tem gerado inquietação em Seul e também em Tóquio, devido ao receio de que a retirada parcial destes sistemas possa reduzir a capacidade de dissuasão perante as ameaças da Coreia do Norte e, de forma indireta, da China.
Redistribuição de recursos para responder ao conflito com o Irão
O envio destes sistemas para o Médio Oriente surge num contexto em que as forças norte-americanas e os seus aliados enfrentam riscos crescentes na região. A guerra com o Irão e a necessidade de proteger infraestruturas estratégicas, bases militares e rotas energéticas aumentaram significativamente a procura por sistemas de defesa aérea avançados.
O deslocamento de componentes do THAAD e de baterias Patriot permite reforçar o escudo antimísseis em torno de países aliados como Israel, bem como em torno de instalações militares norte-americanas e de corredores energéticos considerados críticos.
Contudo, esta operação implica a redistribuição de recursos que, até agora, eram vistos como essenciais para a segurança da península coreana.
Presença militar norte-americana na Coreia do Sul
A Coreia do Sul acolhe uma presença militar significativa dos EUA no âmbito da defesa estabelecida entre os dois países face à ameaça da Coreia do Norte, que possui armas nucleares.
Atualmente, cerca de 28.500 militares norte-americanos estão destacados naquele país. Entre os meios também lá colocados encontram-se sistemas de terra-ar, incluindo intercetores Patriot, concebidos para proteger infraestruturas a forças militares contra ataques aéreos.
Desde 2017, o Pentágono mantém também uma bateria do sistema THAAD instalada em Seongju, composta por vários lançadores e dezenas de intercetores. Este sistema foi desenvolvido para intercetar mísseis balísticos a grande altitude e a longas distâncias, funcionando como uma camada avançada de defesa.
As baterias Patriot desempenham uma função complementar, constituindo uma segunda linha de proteção mais próxima dos alvos, com capacidade para enfrentar mísseis cruzeiro, aeronaves e outras ameaças aéreas.
Para o governo sul-coreano, o envio de parte destes sistemas para o Médio Oriente transmite um sinal contraditório.
Por um lado, Washington insiste que a aliança militar com Seul continua a ser uma prioridade e que o compromisso com a defesa da península permanece intacto. Por outro, o facto de os sistemas poderem ser deslocados relativamente depressa para outros teatros de operações evidencia que, em momentos de maior pressão estratégica global, a região pode perder prioridade face a outras crises.
Esta situação tem alimentado preocupações em Seul sobre o grau de dependência do país em relação às capacidades militares norte-americanas, que podem ser redistribuídas de acordo com as necessidades estratégicas dos Estados Unidos.
Presidente sul-coreano admite que não pode impedir decisão de Washington
O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, reconheceu que o governo de Seul não tem capacidade para impedir que Washington reubique parte das armas estacionadas no país.
“Parece que recentemente existe controvérsia sobre o envio para fora do país de algumas armas, como baterias de artilharia e armas de defesa aérea, por parte das forças norte-americanas na Coreia”, afirmou Lee durante uma reunião do seu gabinete.
O chefe de Estado sublinhou que o governo sul-coreano manifestou a sua oposição à medida, mas admitiu que “não estava em condições de apresentar exigências” às forças norte-americanas.
Ainda assim, Lee procurou minimizar o impacto da retirada parcial de armamento, afirmando que a estratégia de dissuasão contra a Coreia do Norte permanece intacta. Segundo o presidente, os gastos militares e as capacidades convencionais da Coreia do Sul superam amplamente os do regime de Pyongyang.
Risco de interpretações erradas por parte da Coreia do Norte
Analistas de segurança sublinham, contudo, que a presença de armamento norte-americano na península não tem apenas valor militar, mas também simbólico, representando o compromisso direto de Washington com a segurança regional.
Nesse contexto, a retirada de parte destes sistemas poderá ser interpretada de forma errada por Pyongyang e abrir espaço para provocações militares limitadas destinadas a testar a postura defensiva dos aliados.
O líder norte-coreano Kim Jong-un afirmou em fevereiro que pretende continuar a expandir o arsenal nuclear do país e descreveu a Coreia do Sul como o seu “inimigo mais hostil”.
Embora a estratégia de dissuasão sul-coreana esteja oficialmente dirigida à Coreia do Norte, a presença militar norte-americana e a arquitetura de segurança associada à aliança têm também implicações indiretas na relação com a China.
De facto, o próprio destacamento do sistema THAAD em 2017 provocou fortes tensões diplomáticas com Pequim, que considerou o sistema uma ferramenta capaz de reforçar as capacidades de vigilância dos Estados Unidos sobre o território chinês.
Debate político também chega ao Japão
A redistribuição de meios militares norte-americanos também está a gerar discussões no Japão, país que alberga várias bases estratégicas dos Estados Unidos.
Atualmente, dois destróieres norte-americanos equipados com mísseis guiados, estacionados na cidade japonesa de Yokosuka, foram destacados para o mar Arábico para apoiar operações militares relacionadas com o conflito com o Irão.
Ao mesmo tempo, o único porta-aviões norte-americano permanentemente destacado na Ásia permanece no porto de Yokosuka devido a trabalhos de manutenção.
Estas movimentações provocaram debate político no Japão. O líder do principal partido da oposição, Junya Ogawa, manifestou preocupação no parlamento japonês com as notícias de que navios norte-americanos baseados no Japão estariam a ser enviados para o Médio Oriente.
Ogawa sublinhou que o Japão autorizou a presença de forças norte-americanas no seu território com o objetivo de garantir a segurança do arquipélago e contribuir para a estabilidade na Ásia Oriental, e não para apoiar operações militares noutras regiões.
Até ao momento, o governo japonês não comentou publicamente o destacamento destes navios, apesar das crescentes dúvidas sobre o impacto que esta redistribuição militar poderá ter no equilíbrio estratégico da região.






