No meio da escalada militar entre os Estados Unidos e o Irão, as atenções estratégicas estão a concentrar-se num território muito pequeno no Golfo Pérsico. Trata-se da ilha de Kharg, um enclave com apenas 7,7 milhas quadradas (cerca de 20 km²) que, apesar da dimensão reduzida, desempenha um papel central na economia iraniana.
A importância da ilha resulta de um facto decisivo: cerca de 94% do petróleo bruto exportado pelo Irão passa por este terminal, segundo informação citada pelo jornal britânico ‘The Independent’. O crude segue sobretudo para a China e para outros mercados asiáticos, tornando Kharg o principal ponto de saída do petróleo iraniano para o exterior.
Onde fica Kharg e porque é estratégica
A ilha situa-se no Golfo Pérsico, a noroeste do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de energia.
O local abriga o principal terminal petrolífero do Irão, com grandes instalações de armazenamento e carregamento de petróleo destinadas à exportação. Uma imagem de satélite recente mostra a dimensão das infraestruturas energéticas instaladas na ilha.
Segundo analistas citados pelo ‘The Independent’, controlar Kharg teria um impacto profundo na capacidade do Irão de financiar o Estado.
Um alvo que pode sufocar a economia iraniana
Especialistas em segurança e energia apontam que a tomada da ilha poderia cortar a principal fonte de receitas do regime iraniano.
Petras Katinas, investigador em clima, energia e defesa no Royal United Services Institute, explicou ao jornal ‘Telegraph’ que capturar Kharg teria consequências devastadoras para Teerão.
Na sua análise, controlar a ilha permitiria interromper as exportações de petróleo do Irão e enfraquecer drasticamente a capacidade financeira do regime. A dependência do petróleo é significativa: as exportações de crude representam cerca de 40% do orçamento do governo iraniano, segundo vários analistas citados pelo ‘The Independent’.
Impacto global no mercado do petróleo
A relevância estratégica de Kharg torna-se ainda mais evidente num momento em que o Estreito de Ormuz enfrenta fortes perturbações na navegação. A Guarda Revolucionária Islâmica afirmou ter assumido controlo total da via marítima, provocando interrupções no transporte de petróleo e afetando cadeias de abastecimento globais.
Os mercados reagiram rapidamente. O preço do petróleo ultrapassou 100 dólares por barril (cerca de 92 euros) e responsáveis iranianos advertiram que o valor poderia subir até 200 dólares (aproximadamente 184 euros) caso o conflito se intensifique.
Um trunfo militar e político
Alguns analistas sugerem que a ilha poderia ser utilizada como uma espécie de moeda de troca numa eventual negociação futura. Michael Rubin, antigo responsável do Pentágono e analista do American Enterprise Institute, escreveu que controlar Kharg poderia impedir o regime iraniano de pagar salários a militares e funcionários públicos, pressionando a estabilidade interna do país.
Ao mesmo tempo, acrescenta, o controlo da ilha poderia permitir que um eventual governo pós-conflito tivesse acesso a receitas petrolíferas para financiar a reconstrução.
Um alvo com riscos militares
Apesar do valor estratégico, uma operação deste tipo também implicaria riscos elevados. Especialistas alertam que qualquer tentativa de controlo da ilha deixaria forças americanas ou israelitas vulneráveis a ataques das forças iranianas.
O analista petrolífero Tamas Varga, citado pela ‘CNBC’, afirmou que uma operação deste tipo representaria um golpe significativo para o regime iraniano, ao cortar uma das suas principais fontes de receita.
Uma ilha já marcada pela guerra
Kharg não é estranha a conflitos militares. Durante a guerra entre o Irão e o Iraque, nos anos 1980, a ilha foi alvo de ataques de Saddam Hussein em 1984, episódio que desencadeou a chamada Guerra dos Petroleiros, marcada por ataques a navios e infraestruturas energéticas no Golfo Pérsico.
Curiosamente, o próprio Donald Trump já mencionava a ilha há décadas. Numa entrevista ao ‘The Guardian’ em 1988, durante a promoção do livro ‘A Arte da Negociação’, afirmou que um ataque iraniano contra forças americanas justificaria a tomada do território.
“Um tiro contra um dos nossos homens ou navios e eu acabaria com a ilha de Kharg. Eu entraria e conquistá-la-ia”, declarou na altura. Hoje, quase 40 anos depois, essa pequena ilha volta a surgir no centro de um conflito que pode ter consequências globais.








