“Decapitar e delegar”: a doutrina de Trump que está a agitar o tabuleiro da geopolítica global

A política externa dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump entrou numa nova fase marcada por intervenções diretas, pressão diplomática e ameaças abertas a aliados e adversários.

Pedro Gonçalves

A política externa dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump entrou numa nova fase marcada por intervenções diretas, pressão diplomática e ameaças abertas a aliados e adversários. Analistas e responsáveis políticos descrevem esta estratégia como uma doutrina informal resumida na expressão “decapitar e delegar”, uma abordagem que aposta em eliminar rapidamente lideranças hostis e depois deixar o poder nas mãos de novos atores que aceitem alinhar-se com os interesses de Washington.

A estratégia surge num contexto de crescente tensão internacional e de envolvimento norte-americano em múltiplos conflitos, incluindo a guerra no Médio Oriente. Para alguns observadores, o comportamento recente da Casa Branca representa uma transformação profunda face às promessas iniciais de Trump de evitar novas guerras e concentrar a política externa na lógica do “America First”.

Os Estados Unidos têm uma longa tradição de intervenções externas, desde pressões militares e golpes apoiados no estrangeiro até invasões diretas. Episódios históricos incluem ações em países como Guatemala, Irão, Vietname, Granada, Iraque, Afeganistão ou Líbia.

Donald Trump chegou ao poder com um discurso fortemente crítico dessas práticas. Durante a campanha presidencial, prometeu que os EUA deixariam de se envolver em guerras prolongadas e abandonariam projetos de reconstrução política de outros países.

No entanto, pouco mais de um ano depois do início do segundo mandato, o presidente norte-americano é descrito por analistas como um líder cada vez mais ativo no cenário internacional. Segundo críticas surgidas nos últimos meses, os EUA bombardearam vários países, capturaram ou eliminaram líderes estrangeiros e exerceram forte pressão política sobre governos considerados adversários.

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Intervenção direta na liderança de outros países
A postura do presidente tornou-se particularmente evidente nas declarações sobre o futuro político do Irão. Trump chegou mesmo a afirmar que deveria ter influência na escolha do próximo líder iraniano.

“Estão a perder tempo. O filho de Khamenei é insignificante. Eu tenho de participar na escolha”, afirmou o presidente em entrevistas recentes. Na mesma ocasião, acrescentou que o essencial não é a existência de democracia, mas sim a presença de um líder que “trate bem os Estados Unidos e Israel”.

Trump chegou ainda a afirmar que um eventual governo liderado por forças curdas ou até por um novo líder religioso poderia ser aceitável, desde que fosse considerado “justo e equilibrado”.

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Pressões e ameaças a aliados
A estratégia norte-americana não se limita a adversários. Nas últimas semanas, Trump lançou ameaças diretas contra vários aliados tradicionais.

O presidente ameaçou Espanha com um “embargo” e a ruptura de relações comerciais depois de Madrid recusar autorizar o uso das bases militares de Rota e Morón para operações relacionadas com a guerra no Irão. O Reino Unido foi igualmente alvo de críticas por posições semelhantes.

Mesmo Israel, aliado histórico de Washington, não escapou à pressão. Trump exigiu publicamente que fosse concedido um perdão ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, acusado de corrupção, afirmando que não queria que o processo judicial distraísse o líder israelita da guerra contra o Irão.

“Não quero que nada distraia Bibi exceto a guerra com o Irão”, declarou.

Uma política resumida na fórmula “decapitar e delegar”
A abordagem da atual administração foi descrita por responsáveis do Departamento de Estado como “decapitar e delegar”. A expressão refere-se a uma estratégia que consiste em eliminar ou neutralizar as lideranças consideradas hostis e depois deixar o poder nas mãos de forças locais que aceitem cooperar com Washington.

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Segundo esta lógica, não seria necessário um grande envolvimento militar norte-americano. A mudança de poder ocorreria através da pressão política, de intervenções cirúrgicas ou do apoio a forças internas.

Um exemplo citado por analistas é o caso venezuelano, onde a captura de Nicolás Maduro foi vista como um sucesso da estratégia norte-americana. Já no Irão, o cenário revelou-se mais complexo após a morte do líder supremo Ali Khamenei e de várias figuras consideradas moderadas.

Incentivo à revolta interna no Irão
Nos últimos dias, Trump incentivou repetidamente os cidadãos iranianos a sair às ruas e a tentar derrubar o regime.

O presidente norte-americano chegou a partilhar nas redes sociais um artigo de opinião publicado no Washington Post que defendia que os EUA não estavam a iniciar uma guerra, mas sim a terminar um conflito que durava há décadas.

Segundo esse argumento, a queda do regime iraniano poderia ocorrer sem o envio de tropas norte-americanas. “Não há necessidade de uma força de invasão americana. O povo iraniano está no terreno e o destino do país está nas suas mãos”, defendia o texto citado por Trump.

Apoio a aliados ideológicos
Paralelamente às intervenções diretas, Trump tem reforçado o apoio político a líderes internacionais que considera ideologicamente próximos.

Entre os nomes frequentemente citados estão Viktor Orbán, Sanae Takaichi, Nasry Asfura, Nayib Bukele e Javier Milei. Segundo o próprio presidente norte-americano, o seu apoio político teria contribuído para o sucesso eleitoral de vários destes líderes.

Mas o apoio pode também assumir a forma de pressão política. Durante a campanha eleitoral argentina de 2025, Trump condicionou publicamente a cooperação económica com o país ao resultado das eleições.

“A nossa aprovação depende de quem ganhar as eleições”, afirmou na altura, advertindo que os Estados Unidos poderiam deixar de apoiar a Argentina se o aliado Javier Milei fosse derrotado.

Sanções e pressão judicial
Em paralelo, a administração norte-americana tem recorrido frequentemente a sanções contra líderes estrangeiros e até contra magistrados de outros países.

Entre os casos referidos por analistas estão sanções contra o presidente colombiano Gustavo Petro e pressões exercidas sobre autoridades judiciais brasileiras relacionadas com o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Também juízes do Tribunal Penal Internacional foram alvo de restrições financeiras e tecnológicas depois de tentarem processar Benjamin Netanyahu por alegados crimes na guerra de Gaza.

“Hegemonia predadora”
Vários especialistas procuram definir esta nova estratégia de política externa. O politólogo Stephen M. Walt considera que a melhor forma de a descrever é como “hegemonia predadora”.

Segundo Walt, o objetivo central da estratégia é utilizar o poder global dos Estados Unidos para obter concessões, tributos ou demonstrações de lealdade tanto de aliados como de adversários.

“O objetivo principal é utilizar a posição privilegiada de Washington para obter concessões, tributos e deferência tanto de aliados como de adversários, procurando ganhos a curto prazo num mundo que considera de soma zero”, escreve o académico.

Uma mudança profunda na estratégia internacional
Ao contrário de administrações anteriores, que procuravam fortalecer alianças e instituições internacionais, esta abordagem assume uma lógica mais transacional e direta.

Para Walt, esta estratégia não representa uma resposta coerente ao regresso de um sistema internacional multipolar. Pelo contrário, reflete sobretudo a visão pessoal de Trump sobre as relações internacionais.

Segundo o académico, os Estados Unidos passaram a agir como uma potência que explora as vulnerabilidades de outros Estados, numa política impulsionada pela confiança do presidente na sua própria capacidade de gestão dos assuntos internacionais.

Apesar de todas as grandes potências recorrerem ocasionalmente a práticas de pressão ou exploração, a chamada “hegemonia predadora” distingue-se pela tentativa de extrair vantagens tanto de aliados como de adversários.

Em contraste, uma hegemonia considerada benévola procura garantir estabilidade e prosperidade para os seus parceiros, reconhecendo o valor das instituições internacionais e das regras multilaterais.

Para muitos analistas, a política externa atual dos Estados Unidos segue um caminho diferente, num momento em que as tensões internacionais aumentam e o equilíbrio global de poder se torna cada vez mais incerto.

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