Explicador: Qual é arsenal do Irão e durante quanto tempo pode manter a guerra?

O atual conflito envolvendo o Irão, os Estados Unidos e Israel levanta uma série de dúvidas sobre a real capacidade militar de Teerão e sobre quanto tempo o regime poderá manter operações ofensivas.

Pedro Gonçalves
Março 5, 2026
19:21

O atual conflito envolvendo o Irão, os Estados Unidos e Israel levanta uma série de dúvidas sobre a real capacidade militar de Teerão e sobre quanto tempo o regime poderá manter operações ofensivas. O país possui um vasto arsenal de mísseis e drones e uma rede militar complexa, mas enfrenta também limitações logísticas, perdas de liderança e pressões internas que poderão influenciar a duração da guerra.

A seguir, um guia explicador em formato de perguntas e respostas que analisa os principais fatores militares, políticos e estratégicos que determinarão o rumo do conflito.



Qual é a estratégia militar do Irão nesta guerra?
Especialistas citados pela CBC News indicam que a estratégia iraniana passa por provocar danos colaterais em países vizinhos e, simultaneamente, desgastar as defesas aéreas dos Estados Unidos e de Israel.

O embaixador de Israel nas Nações Unidas, Danny Danon, descreveu a resposta iraniana como a reação de “um regime que se debate como um animal raivoso, perigoso para todos à sua volta”. Segundo o diplomata, “isto não é estratégia, é desespero”.

No entanto, vários analistas consideram que esse aparente desespero faz parte da própria estratégia militar de Teerão. O objetivo passa por infligir perdas suficientes para pressionar aliados regionais dos Estados Unidos a convencer o presidente norte-americano, Donald Trump, a pôr fim à guerra.

Galip Dalay, especialista em Médio Oriente do centro de estudos Chatham House, explicou que “a única pessoa que pode parar esta guerra ou pôr-lhe fim é Trump, e penso que é esse o actor que o Irão está a tentar atingir através dos seus ataques”.

Que tipo de alvos estão a ser atacados pelo Irão?
Segundo Robert Malley, antigo enviado especial dos Estados Unidos para o Irão na administração Biden, Teerão optou por atacar o que descreveu como o “ponto fraco” americano na região: bases militares e missões diplomáticas relativamente vulneráveis.

Armamento iraniano atingiu instalações norte-americanas em pelo menos nove países, desde o Golfo Pérsico até Chipre, no Mediterrâneo. Vários ataques provocaram feridos e mortos, sobretudo entre civis locais.

Drones também atingiram embaixadas e consulados norte-americanos em cidades como Riade, Dubai e Cidade do Kuwait, causando incêndios e danos materiais.

Porque são os drones uma peça central da estratégia iraniana?
Os drones kamikaze tornaram-se uma das armas mais importantes do arsenal iraniano. Entre os modelos mais conhecidos estão os drones da série Shahed, capazes de transportar explosivos e atingir alvos até cerca de dois mil quilómetros de distância.

Estes aparelhos são programados para atingir alvos específicos e já foram responsáveis por danos em várias instalações diplomáticas norte-americanas durante o conflito.

Além da sua capacidade operacional, o fator mais relevante é o custo. Cada drone pode custar entre 20 mil e 50 mil dólares, enquanto um único míssil interceptor Patriot utilizado para os destruir pode custar cerca de quatro milhões de dólares e demorar muito mais tempo a ser substituído.

A especialista Kelly Grieco, do centro de estudos Stimson Center, resumiu a lógica da estratégia iraniana ao afirmar que “por cada dólar que o Irão gastou em drones, os Emirados Árabes Unidos gastaram cerca de 20 a 28 dólares para os abater”.

Os drones são também relativamente fáceis de transportar e lançar. Segundo Justin Crump, diretor da consultora britânica de risco e inteligência Sibylline, podem ser disparados a partir de camiões aparentemente comuns.

“Retira-se a cobertura e eles são lançados. Isso é muito mais fácil e muito menos detetável do que um lançador de mísseis balísticos”, explicou.

Qual é o tamanho do arsenal de mísseis iraniano?
Os mísseis balísticos continuam a ser outra grande capacidade militar do Irão. O país possui o maior arsenal de mísseis do Médio Oriente, composto por mais de vinte tipos diferentes, muitos deles montados no próprio país a partir de componentes nacionais e estrangeiros.

Grande parte destes mísseis foi utilizada contra Israel em ataques anteriores, embora vários lançadores tenham sido destruídos por bombardeamentos israelitas durante o conflito.

Apesar disso, especialistas acreditam que a extensa rede de depósitos subterrâneos do Irão — que inclui centros de produção, armazenamento e sistemas de lançamento — permite continuar a repor parte do arsenal.

Justin Crump estima que o país possa dispor atualmente de cerca de dois mil mísseis de longo alcance e um número semelhante de mísseis de curto alcance.

Durante quanto tempo pode o Irão manter os ataques?
Segundo as estimativas de Crump, no início da guerra o Irão teria reservas de mísseis suficientes para cerca de dez a doze dias de ataques ao ritmo atual.

No entanto, quando se combinam mísseis e drones, a campanha aérea pode prolongar-se durante várias semanas, mesmo sob ataques contínuos de forças norte-americanas e israelitas.

Outro fator que poderá prolongar o conflito é a dispersão e ocultação de arsenais, incluindo instalações subterrâneas difíceis de atingir.

Quem lidera o regime iraniano após a morte de Ali Khamenei?
Logo no primeiro dia de guerra, ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel mataram o líder supremo iraniano, ayatollah Ali Khamenei, bem como vários altos responsáveis do regime.

Entre os dirigentes cuja morte foi anunciada estão o conselheiro Ali Shamkhani, o ministro da Defesa Aziz Nasirzadeh e o comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, Mohammad Pakpour.

Após a morte de Khamenei, foi criado um conselho de liderança interino composto por três figuras: o presidente reformista Masoud Pezeshkian, o chefe do poder judicial Gholamhossein Mohseni Ejei e o membro do Conselho dos Guardiões ayatollah Alireza Arafi.

Este órgão governará temporariamente até que a Assembleia dos Peritos escolha um novo líder supremo.

A população iraniana apoia o regime?
Nos meses anteriores ao conflito, o Irão foi palco de protestos motivados sobretudo por dificuldades económicas e pela desvalorização do rial.

As manifestações começaram no Grande Bazar de Teerão — historicamente um dos centros mais influentes da sociedade iraniana — e espalharam-se por vários sectores sociais.

Apesar da dimensão inédita destes protestos, especialistas sublinham que isso não significa necessariamente que exista um apoio esmagador à queda do regime.

Após a morte de Khamenei, registaram-se simultaneamente manifestações de luto e celebrações no país, sinal de uma sociedade profundamente dividida.

Qual é o papel das forças armadas iranianas?
O sistema militar iraniano é composto por duas estruturas paralelas: a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e o exército regular conhecido como Artesh.

A Guarda Revolucionária tem como principal missão proteger o regime e controla grande parte dos arsenais de mísseis e drones do país. Já o Artesh é menos ideológico, maior em número de tropas e responsável pela defesa convencional.

Ao longo dos anos, o regime manteve deliberadamente uma rivalidade entre as duas estruturas, dando mais financiamento e influência à Guarda Revolucionária.

Os ataques norte-americanos e israelitas têm visado sobretudo instalações da Guarda Revolucionária, precisamente porque esta controla os principais arsenais estratégicos.

Que papel podem ter os aliados e os grupos aliados do Irão?
A guerra já se estendeu a vários países da região. Ataques iranianos atingiram os Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Qatar e Bahrein, todos eles anfitriões de bases militares norte-americanas.

Além disso, grupos aliados de Teerão entraram no conflito. O Hezbollah libanês lançou mísseis contra Israel e milícias xiitas iraquianas reivindicaram ataques contra bases dos Estados Unidos e dos seus aliados.

Em resposta, ataques aéreos atingiram posições da rede de milícias conhecida como Frente de Mobilização Popular na província iraquiana de Anbar.

Curiosamente, um aliado esperado ainda não entrou militarmente na guerra: os Huthis do Iémen, que até agora apenas manifestaram apoio político ao Irão.

O que poderá determinar o desfecho da guerra?
Segundo analistas do Instituto da Guerra Moderna, o desfecho do conflito dependerá de vários fatores interligados: a capacidade militar remanescente do Irão, a resistência interna do regime, a participação de aliados regionais e os objetivos estratégicos dos Estados Unidos e de Israel.

O presidente norte-americano Donald Trump declarou que as operações militares continuarão “até que todos os nossos objetivos sejam alcançados”.

No entanto, continua por esclarecer se esses objetivos passam apenas por destruir as capacidades militares e nucleares iranianas ou se incluem uma mudança de regime.

Independentemente do resultado final, analistas acreditam que o Irão que emergirá deste conflito poderá ser “mais fragmentado, mais caótico, mas ainda de pé”, como afirmou Robert Malley.

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