Ucrânia vai enviar especialistas antidrones para países atacados pelo Irão

A Ucrânia anunciou que está disposta a enviar especialistas militares para ajudar países do Médio Oriente a defender-se de ataques com drones iranianos, numa iniciativa que Kiev apresenta como uma forma de aproveitar a experiência acumulada durante a guerra contra a Rússia.

Pedro Gonçalves

A Ucrânia anunciou que está disposta a enviar especialistas militares para ajudar países do Médio Oriente a defender-se de ataques com drones iranianos, numa iniciativa que Kiev apresenta como uma forma de aproveitar a experiência acumulada durante a guerra contra a Rússia. O anúncio foi feito pelo presidente Volodymyr Zelensky, que garantiu que o país dispõe de conhecimentos técnicos avançados no combate a este tipo de armamento e que já recebeu vários pedidos de cooperação internacional, incluindo dos Estados Unidos.

A decisão surge depois de vários dias de incerteza sobre o papel que a Ucrânia poderia desempenhar no atual aumento das tensões na região. Numa comunicação divulgada na noite de quarta-feira, Zelensky revelou pela primeira vez que o envio de especialistas para o terreno está em preparação, embora sem indicar datas concretas. Segundo explicou, a iniciativa responde a contactos feitos por parceiros regionais de Kiev que enfrentam ataques com drones lançados pelo Irão em resposta a operações militares conduzidas por Washington e Israel.



O chefe de Estado sublinhou que a Ucrânia acumulou uma experiência única no combate a este tipo de ameaças, recordando que o país tem sido alvo intensivo de drones iranianos utilizados pela Rússia desde o início da invasão em grande escala, em fevereiro de 2022. De acordo com os cálculos apresentados por Zelensky, Kiev terá sido atacada por cerca de 57 mil drones iranianos desde o início da guerra.

Experiência acumulada na guerra contra a Rússia
Grande parte desses ataques foi realizada com drones kamikaze iranianos Shahed 131 e Shahed 136, os mesmos modelos que Teerão tem utilizado recentemente contra países do Médio Oriente. Moscovo emprega estes aparelhos há anos contra a infraestrutura energética e zonas residenciais ucranianas.

Zelensky defendeu que a experiência adquirida por Kiev ao longo de quatro anos de guerra eletrónica pode agora ser útil para outros países. “A Ucrânia pode contribuir para proteger vidas e estabilizar a situação”, afirmou o presidente num comunicado divulgado após contactos com vários parceiros regionais envolvidos no atual conflito.

O líder ucraniano explicou que já discutiu a questão com as mais altas autoridades militares do país para estudar formas de assistência que não comprometam a defesa nacional. “O nosso exército possui as capacidades necessárias. Especialistas ucranianos operarão no terreno”, indicou, acrescentando que os esforços estão atualmente a ser coordenados.

Dúvidas entre analistas sobre capacidade de Kiev
Apesar da proposta, alguns especialistas consultados pelo diário espanhol El País consideram que a Ucrânia atravessa um momento particularmente delicado na guerra com a Rússia e poderá não ter margem para enviar especialistas para o estrangeiro.

Esses analistas alertam ainda para o risco de um agravamento do conflito que leve Moscovo a aprofundar a cooperação militar com Teerão, sobretudo no domínio tecnológico e do fornecimento de armamento.

Ainda assim, a Ucrânia tem vindo a reforçar as suas próprias capacidades de defesa contra drones. Para além da experiência acumulada pelos militares e técnicos, Kiev tem desenvolvido sistemas de interceção cada vez mais sofisticados destinados a neutralizar estes aparelhos não tripulados.

Interesse internacional nos sistemas ucranianos
O interesse por essa tecnologia já começa a surgir no exterior. Segundo o jornal britânico Financial Times, o Pentágono e pelo menos um parceiro dos Estados Unidos no Golfo estão em negociações para adquirir intercetores de drones desenvolvidos pela Ucrânia.

Zelensky aproveitou também o anúncio para destacar os progressos militares alcançados pelo país durante os anos de guerra. Ao mesmo tempo, deixou claro que a ajuda de Kiev não será gratuita. Em troca, o presidente ucraniano pede um reforço do apoio internacional para pôr fim ao conflito armado que opõe a Ucrânia à Rússia desde 2014, quando forças ligadas ao Kremlin ocuparam territórios ucranianos.

A proposta foi discutida ao longo de contactos diplomáticos mantidos entre terça-feira e quarta-feira com dirigentes dos Emirados Árabes Unidos, Qatar, Jordânia, Bahrein e Kuwait. Num vídeo divulgado nas redes sociais, Zelensky afirmou que pretende definir com estes países “como, juntos, podemos proporcionar maior proteção”.

“A experiência da Ucrânia na luta contra os drones Shahed é atualmente a mais avançada do mundo, e estes drones representam também o principal desafio naquela região”, afirmou o presidente. “É compreensível que tantas solicitações estejam a ser dirigidas à Ucrânia”.

Kiev insiste na necessidade de apoio militar
Apesar da abertura à cooperação internacional, Zelensky reiterou que a prioridade continua a ser a defesa do território ucraniano. “Qualquer cooperação deste tipo destinada a proteger os nossos parceiros só pode prosseguir sem prejudicar as nossas próprias capacidades de defesa”, sublinhou.

O presidente recordou que os ataques russos continuam e que proteger a população ucraniana permanece como objetivo central do Governo. “A guerra da Rússia contra a Ucrânia continua, os ataques russos continuam, e proteger as vidas dos ucranianos continua a ser a nossa principal prioridade”, afirmou.

Zelenski acusou ainda o Irão de representar uma ameaça direta à estabilidade internacional. “O regime iraniano, que procura sobreviver a qualquer preço, constitui uma ameaça clara para todos os Estados da região e para a estabilidade global”, declarou após uma reunião dedicada à situação no Médio Oriente.

Segundo o líder ucraniano, desde o fim de semana o Irão terá lançado cerca de 1.400 drones, ataques que estão a provocar impacto nos mercados energéticos, sobretudo devido ao encerramento do estreito de Ormuz, um ponto estratégico para o transporte mundial de petróleo.

Diplomacia ucraniana reforça contactos na região
A mesma posição foi reiterada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andrii Sibiga, durante contactos com autoridades da Arábia Saudita. Num comunicado divulgado após essas conversações, o chefe da diplomacia ucraniana afirmou que Kiev está pronta para partilhar o conhecimento acumulado durante a guerra.

“Estamos preparados para partilhar a nossa experiência com parceiros que enfrentam ameaças semelhantes”, declarou Sibiga.

Sistemas de defesa multicamada contra drones
Do ponto de vista técnico, especialistas em defesa indicam que a experiência ucraniana pode ser particularmente útil para lidar com ataques massivos de drones.

Vadym Kushnikov, diretor executivo do portal ucraniano especializado em defesa Militarnyi, explica que uma das principais contribuições possíveis seria a aplicação do sistema de deteção e neutralização de drones desenvolvido por Kiev durante a guerra.

Este sistema, conhecido como C-UAS (Counter-Unmanned Aircraft Systems), baseia-se numa arquitetura multicamada que combina diferentes tecnologias para identificar, seguir e destruir aparelhos não tripulados.

Kushnikov aponta ainda outras duas formas possíveis de cooperação: o fornecimento de drones concebidos para intercetar outros drones e o eventual envio de unidades ucranianas especializadas para operar diretamente no terreno.

Contudo, o especialista admite que esta última hipótese levanta dúvidas. “Essa opção não é viável porque precisamos urgentemente deles aqui”, afirmou, referindo-se aos especialistas militares ucranianos.

Desenvolvimento de novas tecnologias de interceção
Entre os militares envolvidos neste esforço está Andrii Kibenok, membro da 28.ª Brigada do exército ucraniano atualmente destacado na região oriental de Donetsk, uma das zonas onde a competição tecnológica entre Kiev e Moscovo é mais intensa.

Kibenok tornou-se especialista em sistemas antidrones e explica que a Ucrânia tem vindo a aperfeiçoar diferentes métodos para neutralizar os aparelhos Shahed. Entre eles estão sistemas capazes de interferir nas frequências utilizadas pelos drones, impedindo a sua navegação.

Além disso, o país tem investido no desenvolvimento de drones intercetores destinados a destruir outros drones em pleno voo. Segundo o militar, a inteligência artificial começa a desempenhar um papel crescente nestes sistemas, permitindo melhorar o seguimento automático de alvos.

Expansão global do modelo Shahed

O modelo de drone iraniano Shahed continua a ganhar presença fora da Ucrânia. Os Estados Unidos reconheceram que utilizaram recentemente uma versão própria deste tipo de aparelho contra o regime iraniano.

Trata-se do drone kamikaze Lucas, um sistema de baixo custo inspirado no Shahed 136 e significativamente mais barato do que os mísseis tradicionais.

Entretanto, a Rússia também desenvolveu variantes próprias baseadas na tecnologia iraniana. Embora Moscovo tenha reduzido a dependência direta do Irão à medida que aumenta a produção doméstica, parte do arsenal russo continua a ser fornecido diretamente por Teerão.

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