A energia mais importante é a que não desperdiçamos

Opinião de Daniela Simões, Cofundadora e CEO da miio

André Manuel Mendes
Março 5, 2026
10:08

Por Daniela Simões, Cofundadora e CEO da miio

No Dia Mundial da Eficiência Energética fala-se muitas vezes de produção: mais renováveis, mais capacidade instalada, mais eletrificação. Mas há um tipo de energia que continua a ser subestimada: aquela que não precisamos de produzir.



A eficiência energética não é um conceito abstrato nem um objetivo secundário da transição energética. É uma das formas mais rápidas e custo-eficazes de reduzir emissões e conter investimento adicional, com impacto direto no custo final dos carregamentos para famílias e empresas. Num contexto de eletrificação crescente, não basta consumir energia mais limpa, é preciso utilizá-la melhor e reduzir perdas ao longo de toda a cadeia de valor.

Portugal tem feito progressos relevantes na descarbonização. Em anos recentes, mais de 60% da eletricidade produzida no país teve origem em fontes renováveis, colocando-nos entre os sistemas elétricos mais limpos da Europa. Mas produzir energia limpa não resolve, por si só, o desafio da eficiência. A crescente penetração de renováveis intermitentes exige maior flexibilidade e melhor gestão da rede e da procura. A forma como gerimos recursos, infraestruturas e informação continua a ser determinante.

Um bom exemplo disso é a mobilidade elétrica. A eficiência não se mede apenas pelo número de veículos ou de postos de carregamento, por indicadores como taxa de utilização da infraestrutura, níveis de indisponibilidade, previsibilidade de preços e qualidade da informação em tempo real. Um veículo elétrico converte em movimento cerca de 70% a 90% da energia que consome, enquanto um motor de combustão raramente ultrapassa os 30%. Ainda assim, esse ganho pode ser reduzido se o sistema que o suporta for ineficiente ou mal coordenado.

Sempre que um condutor encontra um posto indisponível, subutilizado ou difícil de localizar, há desperdício de energia, de tempo e de investimento. Infraestrutura subutilizada representa capital imobilizado que poderia estar a servir mais utilizadores ou a evitar nova capacidade instalada. A eficiência depende tanto da infraestrutura física como da inteligência digital que a suporta. Sistemas interoperáveis, dados em tempo real e plataformas integradas permitem utilizar melhor os recursos existentes e evitar redundâncias e aumentar a taxa de utilização dos ativos já instalados.

Portugal é um exemplo claro desta lógica. A rede pública de carregamento tem vindo a crescer de forma consistente e já ultrapassa os 5 mil postos e mais de 9 mil pontos de carregamento disponíveis, reforçando a capilaridade do sistema e a confiança dos utilizadores. Este crescimento, aliado ao modelo de interoperabilidade nacional, contribui para uma utilização mais equilibrada da infraestrutura e para uma experiência mais simples e previsível. O próximo passo é reforçar métricas de desempenho, padronização de dados e incentivos regulatórios alinhados com qualidade de serviço — não apenas com o número de instalações.

A transição energética não será bem-sucedida se for apenas uma mudança de fontes. Tem de ser uma mudança na forma como pensamos e utilizamos a energia incluindo como planeamos investimento e gerimos a procura. Produzir energia limpa é indispensável,  mas utilizá-la de forma inteligente, e baseada em dados, é o que garante impacto duradouro.

O verdadeiro desafio agora não é apenas investir mais, mas usar melhor: os dados, as infraestruturas e a tecnologia que já temos disponível. Isso implica integrar carregamento inteligente, promover transparência de preços e incentivar consumo fora dos períodos de maior pressão sobre a rede. A eficiência energética tem de deixar de ser vista como um objetivo técnico e passar a ser um princípio orientador das decisões públicas, empresariais e individuais.

No futuro energético que estamos a construir, não vai liderar quem produz mais energia, mas, sim, quem souber utilizá-la com mais inteligência.

 

 

 

 

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