A França defende que o calendário de alargamento da União Europeia não pode ser condicionado por pressões externas, nomeadamente dos Estados Unidos ou da Rússia. A posição foi assumida pelo ministro francês dos Assuntos Europeus, Benjamin Haddad, que sublinhou que a decisão cabe exclusivamente aos Estados-membros.
“Nenhuma potência fora da UE deve decidir o alargamento em vez dos Estados-membros”, afirmou o governante francês, que representa Paris nas reuniões sobre alargamento com os restantes países do bloco, em entrevista ao jornal Politico.
As declarações surgem num momento em que a Comissão Europeia e vários Estados-membros defendem uma integração mais rápida da Ucrânia na União Europeia, encurtando significativamente os prazos habitualmente aplicados aos países candidatos.
O impulso de Bruxelas está ligado ao contexto geopolítico atual. A adesão à UE tornou-se uma peça negocial nas conversações de paz lideradas pelos Estados Unidos entre Kiev e Moscovo. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem como objetivo a entrada da Ucrânia na União até 2027, sendo essa perspetiva vista como um incentivo político para a sociedade ucraniana num eventual acordo que implique concessões difíceis.
Apesar de França apoiar a adesão da Ucrânia, Haddad deixou claro que o processo não deve ser moldado por circunstâncias externas ou por equilíbrios diplomáticos alheios à própria União. “Nem os Estados Unidos nem a Rússia” devem exercer qualquer influência sobre a política de alargamento, reforçou.
O ministro acrescentou que a Ucrânia, a Moldávia e os países dos Balcãs Ocidentais — amplamente considerados parte de uma futura vaga de alargamento — não podem ser deixados “numa zona cinzenta, vulnerável à influência e agressão estrangeiras”.
Um processo exigente e baseado no mérito
Embora Paris seja favorável ao alargamento, mostra-se mais reticente quanto a propostas que alterem o modelo tradicional de adesão. Entre as ideias em discussão está a possibilidade de conceder menos privilégios aos novos Estados no momento da entrada, prevendo um processo faseado até à plena integração.
Benjamin Haddad rejeita uma flexibilização excessiva das regras. “Este alargamento deve continuar a ser exigente e baseado no mérito para garantir o seu sucesso e credibilidade”, defendeu.
A posição francesa sugere prudência face a um calendário acelerado, insistindo na necessidade de cumprir critérios rigorosos antes da adesão plena.
Preferência europeia no orçamento comunitário
O ministro, de 40 anos, interveio ainda no debate sobre o reforço da competitividade europeia e a afetação de recursos no próximo quadro financeiro plurianual da União Europeia, conhecido como Multiannual Financial Framework.
Haddad defendeu a consagração de uma “preferência europeia” nas futuras decisões de investimento financiadas pelo orçamento de longo prazo da União.
“Porque haveríamos de ser mais ingénuos do que os americanos, que há muito aplicam políticas de Buy American?”, questionou. “A preferência europeia deve ser uma regra transversal do quadro financeiro plurianual.”
Novo endividamento comum para inovação e defesa
O governante francês apoiou igualmente a ideia de os Estados-membros recorrerem a endividamento conjunto para financiar inovação e apoiar grandes projetos industriais europeus, tema que divide os países da União.
Os chamados países “frugais”, entre os quais a Alemanha, defendem que as necessidades de investimento podem ser satisfeitas através do orçamento europeu já existente, sem recurso a nova dívida comum.
Haddad, pelo contrário, considera necessário “avaliar uma nova capacidade de endividamento comum direcionada e focada no investimento em inovação disruptiva, em particular na defesa ou em capacidades de inteligência artificial e quântica”.
Num contexto orçamental apertado em vários Estados-membros, o ministro argumenta que esta solução permitiria financiar investimentos estratégicos “sem aumentar imediatamente as contribuições nacionais”.
Recordou ainda que um relatório marcante do antigo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, apontou para a necessidade de 800 mil milhões de euros anuais em investimento público e privado para que a Europa recupere face aos seus concorrentes tecnologicamente mais avançados.
Críticas a Von der Leyen sobre o acordo Mercosul
Benjamin Haddad deixou também críticas à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pela forma como avançou com o acordo comercial com o Mercosul, contestado por França.
“Este movimento ignora os membros do Parlamento Europeu e o acordo interinstitucional”, afirmou.
Na perspetiva do ministro francês, trata-se de “um mau sinal da Comissão tanto para os nossos agricultores como para os cidadãos europeus em geral”.
As declarações evidenciam a linha de firmeza de Paris em dois dossiês sensíveis: o alargamento da União Europeia e a estratégia económica do bloco num contexto de crescente competição global e tensão geopolítica.











