Primeira vaga de europeus retida pelo conflito no Irão regressa a casa: centenas de milhares ainda presos na região

Pelo menos 4.000 voos foram cancelados em apenas três dias, numa disrupção considerada a maior transformação no transporte aéreo global desde a pandemia da Covid-19

Francisco Laranjeira

As viagens aéreas internacionais continuam profundamente afetadas pela guerra no Irão, que levou ao encerramento de grandes hubs do Médio Oriente, como Dubai, Doha e Abu Dhabi, deixando centenas de milhares de passageiros retidos e provocando milhares de cancelamentos, segundo a agência ‘Reuters’.

Pelo menos 4.000 voos foram cancelados em apenas três dias, numa disrupção considerada a maior transformação no transporte aéreo global desde a pandemia da Covid-19. O Dubai, que recebe mais de mil voos por dia e é um dos principais pontos de ligação entre Europa e Ásia, foi particularmente atingido.



Companhias europeias suspenderam rotas para a região. A British Airways cancelou voos para Amã, Abu Dhabi, Bahrain, Dubai, Doha e Telavive até 5 de março. A Air France suspendeu ligações para Telavive, Beirute, Dubai e Riade, enquanto a KLM interrompeu voos para Dubai, Riade e Damão até 9 de março. A Etihad Airways suspendeu temporariamente todos os voos de e para Abu Dhabi.

Apesar de Bahrain, Kuwait e Qatar terem indicado que poderão reabrir o espaço aéreo, o site ‘Flightradar24’ mostrava na segunda-feira praticamente vazio o céu sobre o Irão, Iraque, Kuwait, Israel, Bahrain, Emirados Árabes Unidos e Qatar.

O impacto vai muito além da região. Passageiros ficaram retidos em destinos como Bali, Katmandu e Frankfurt. Só nos Emirados Árabes Unidos, as autoridades de aviação civil assistiram cerca de 20.200 viajantes num único dia.

Alguns voos conseguiram sair. O EY067, proveniente de Abu Dhabi, aterrou em Heathrow pouco depois das 19h desta segunda-feira. Passageiros relataram ao jornal ‘The Guardian’ momentos de tensão ao presenciarem intercetações de mísseis a partir dos hotéis onde estavam alojados.

“Podíamos ouvir as explosões. Às vezes sentíamos o impacto… e havia cinzas negras a cair durante o pequeno-almoço”, contou Pen Harrison, que regressava de uma viagem ao Sri Lanka. Outro passageiro, Sahib Matharu, descreveu o ambiente como “surreal” e marcado por incerteza até ao momento da descolagem.

Após duas noites de espera, alguns passageiros receberam mensagem da companhia aérea com instruções para se dirigirem rapidamente ao aeroporto. Muitos tiveram apenas minutos para descer dos quartos.

O Reino Unido começou entretanto a preparar planos de evacuação para parte dos cerca de 300 mil britânicos que vivem na região do Golfo. Segundo dados oficiais, 102 mil registaram a sua presença nos Emirados Árabes Unidos.

Nos hotéis próximos dos aeroportos, multiplicam-se relatos de improviso e ansiedade. Grupos de WhatsApp surgiram para partilha de informações práticas: onde encontrar roupa, medicamentos ou como recuperar bagagem. Muitos descrevem noites difíceis, com alarmes nos telemóveis e receio de novos ataques.

Em Abu Dhabi, mensagens de alerta enviadas pelas autoridades pediam aos residentes e turistas que se mantivessem afastados de janelas. No aeroporto, alguns viajantes relataram ter visto vidros partidos. No Dubai, os danos foram ainda mais significativos, com mísseis a atingirem zonas como o porto de Jebel Ali e áreas próximas do icónico Burj Al Arab. Pelo menos três pessoas morreram nos Emirados Árabes Unidos na sequência dos ataques.

“É o desconhecido. Nunca estive numa zona de guerra”, confessou uma turista britânica retida na região. Outros destacaram a organização das companhias aéreas, apesar da dimensão da crise.

A guerra entre o eixo EUA-Israel e o Irão não está apenas a alterar o equilíbrio geopolítico no Médio Oriente. Está também a provocar uma onda de choque no sistema global de aviação, expondo a vulnerabilidade dos grandes corredores aéreos internacionais num mundo altamente interligado.

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