A instabilidade no Médio Oriente voltou a colocar o conflito entre os Estados Unidos e o Irão no centro da agenda internacional. Mais do que os impactos imediatos nos mercados ou nos preços da energia, a analista geopolítica Ana Maria Evans considerou, em exclusivo à ‘Executive Digest’, que este momento deve ser lido à luz de uma lógica estratégica mais profunda. Em entrevista, explica por que razão o ataque aconteceu agora, que mensagem está a ser enviada a Pequim e que mundo pode emergir desta nova escalada.
Pergunta: Há muito que existe tensão entre Washington e Teerão. O que justifica este ataque tão marcante dos Estados Unidos e de Israel precisamente agora?
Ana Maria Evans: A primeira pergunta é mesmo essa: porquê agora? E a resposta passa por uma janela de oportunidade. O regime iraniano está vulnerável em dois pilares fundamentais — o interno e o externo.
Internamente, houve repressões muito recentes de manifestações, com números de mortos que variam entre sete mil e trinta mil pessoas. Mesmo admitindo divergências nos dados, trata-se de um número dantesco em poucas semanas. Isto fragiliza o regime.
Externamente, após o ataque de 7 de outubro e a guerra em Gaza, Israel desmantelou grande parte da capacidade das milícias patrocinadas pelo Irão: Hezbollah no Líbano, Hamas em Gaza, parte dos Houthis no Iémen e estruturas associadas na Síria. A queda do regime de Assad também cortou corredores logísticos essenciais. Resultado: o Irão tem hoje muito menos projeção regional do que tinha há pouco tempo.
Portanto, juntam-se dois fatores: fraqueza interna e perda de influência externa. Ao mesmo tempo, Israel já tinha testado em junho a capacidade de atingir alvos estratégicos dentro do território iraniano. Sabia que podia desmantelar pontos-chave através da sua força aérea.
Pergunta: Mas os mísseis balísticos iranianos representam uma ameaça existencial para Israel?
Ana Maria Evans: Não da mesma forma que uma arma nuclear. Mas o problema é a quantidade. O Irão tem tantos mísseis balísticos que, mesmo com a Cúpula de Ferro e vários níveis de defesa antiaérea, não é possível garantir a interceção total se forem lançados em massa. Já vimos alguns ultrapassarem os sistemas de defesa.
Além disso, o programa de enriquecimento de urânio continuou apesar dos ataques anteriores. Para Israel, isto é uma questão existencial. Portanto, a decisão resulta desta conjugação: vulnerabilidade iraniana e necessidade estratégica israelita.
Pergunta: Referiu que há outro fator importante: a China. De que forma este conflito se liga à rivalidade entre Washington e Pequim?
Ana Maria Evans: Esse é o segundo grande pilar explicativo. Estamos numa guerra fria pelos minérios críticos e pelo controlo das cadeias de abastecimento. A lógica histórica é clara: uma grande potência tenta travar a ascensão de outra.
A China controla cerca de 60% dos minérios críticos a nível global ao longo de toda a cadeia — da extração à refinação e transporte — e mais de 90% em certas terras raras essenciais à indústria da defesa. Quando o Presidente Trump anunciou tarifas elevadas, Pequim respondeu silenciosamente restringindo exportações de terras raras, afetando diretamente a indústria militar americana.
Agora vemos o movimento inverso. O Irão é um grande fornecedor de petróleo à China, inclusive através de circuitos paralelos que contornam sanções. A Venezuela representava cerca de 10% das importações chinesas de petróleo e também foi alvo de pressão americana. Ao atacar o Irão, Washington está, na prática, a estrangular fontes energéticas relevantes para Pequim.
Ao mesmo tempo, demonstra que continua capaz de projetar força a longa distância e de atuar sobre pontos críticos como o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo.
Pergunta: Isto significa que os Estados Unidos pretendem prolongar o conflito?
Ana Maria Evans: Não necessariamente. Trump não tem interesse político em guerras longas. A sua lógica é diferente: desmantelar infraestruturas críticas — nomeadamente as controladas pela Guarda Revolucionária iraniana — e sair.
A Guarda Revolucionária controla o programa de mísseis balísticos, partes do programa nuclear, forças próprias navais e aéreas, além de forte presença em setores estratégicos da economia. Enfraquecer essa estrutura é o objetivo central.
A estratégia é clara: agir de forma cirúrgica, enfraquecer capacidades estratégicas e enviar um sinal geopolítico — sobretudo à China — de que os Estados Unidos ainda conseguem fechar a torneira quando está em causa o seu interesse nacional.
Pergunta: Que consequências podemos esperar para os próximos meses?
Ana Maria Evans: Há um risco económico evidente. Se os navios evitarem o Estreito de Ormuz ou o Mar Vermelho e optarem por contornar África pelo Cabo da Boa Esperança, as viagens aumentam 11 ou 12 dias. Isso encarece seguros, combustível, custos de tripulação e, inevitavelmente, os produtos finais.
Não falamos apenas de petróleo, mas também de mercadorias que vêm da Ásia para a Europa. O impacto pode traduzir-se em pressão inflacionista.
Geopoliticamente, entramos numa fase de confrontação estrutural. Este conflito não é isolado. Liga-se à rivalidade sino-americana, à guerra na Ucrânia e à disputa pelo controlo das cadeias críticas globais. O Médio Oriente é hoje um dos tabuleiros dessa competição maior.
E a mensagem é inequívoca: quando considera que os seus interesses estratégicos estão em causa, Washington mostra que ainda tem capacidade de projetar poder e de intervir nos corredores centrais do comércio mundial.






