“Um mundo acorrentado aos combustíveis fósseis”: guerra no Irão prova que é hora de abandonar o petróleo?

Para Mads Christensen, do Greenpeace Internacional, a decisão da OPEP+ de aumentar a produção de petróleo deixa clara uma realidade: enquanto o mundo continuar dependente de petróleo e gás, a estabilidade económica e a segurança global estarão “à mercê da geopolítica”

Francisco Laranjeira

A escalada do conflito no Médio Oriente voltou a dar força aos apelos por uma transição acelerada para energias renováveis. Organizações ambientalistas defendem que a crise em torno do Estreito de Ormuz demonstra, mais uma vez, a vulnerabilidade estrutural de um sistema energético excessivamente dependente de combustíveis fósseis, segundo a ‘Euronews’.

Para Mads Christensen, do Greenpeace Internacional, a decisão da OPEP+ de aumentar a produção de petróleo deixa clara uma realidade: enquanto o mundo continuar dependente de petróleo e gás, a estabilidade económica e a segurança global estarão “à mercê da geopolítica”. O responsável sublinha que reforçar a produção pode aliviar temporariamente os preços, mas não resolve o problema de fundo — a exposição constante a choques externos.



Também a organização 350.org considera que o atual conflito expõe os “custos horrendos” de um mundo “acorrentado aos combustíveis fósseis”. A diretora-geral Oliva Langhoff defende que a concentração de uma parte significativa do fornecimento mundial de energia num único ponto crítico, como o Estreito de Ormuz, revela a fragilidade do modelo atual. Para a organização, a aposta em energias renováveis produzidas internamente permitiria reduzir a dependência de rotas estratégicas e amortecer os efeitos de crises geopolíticas.

Só depois desta nova vaga de apelos à transição verde é que os mercados energéticos reagiram de forma expressiva. O petróleo Brent, referência internacional, subiu cerca de 10%, ultrapassando os 82 dólares por barril (aproximadamente 75 euros), após ataques a navios nas imediações do Estreito de Ormuz — passagem de 38 quilómetros por onde circula cerca de 20% do abastecimento mundial de petróleo, o equivalente a 20 milhões de barris por dia.

O alerta do Irão sobre o eventual fecho do estreito levou centenas de navios a fundear e praticamente interrompeu exportações de petróleo e gás na região, intensificando as preocupações com o fornecimento global.

A OPEP+ respondeu com um aumento da produção de 206 mil barris por dia no próximo mês. Ainda assim, analistas da Wood Mackenzie avisam que, se o fluxo pelo Estreito de Ormuz não for rapidamente restabelecido, os preços poderão ultrapassar os 100 dólares por barril (cerca de 92 euros).

Apesar de existirem alternativas logísticas, como o oleoduto Leste-Oeste até ao Mar Vermelho ou exportações adicionais a partir do Iraque, os especialistas lembram que o aumento da oferta não é imediato nem ilimitado.

Para os grupos ambientalistas, esta sucessão de eventos reforça a urgência de investir em fontes renováveis e sistemas energéticos descentralizados, capazes de garantir segurança e previsibilidade num contexto internacional cada vez mais instável.

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