Queda do regime, caos ou negociações? Os três cenários possíveis no Irão após o ataque dos EUA

Perante a guerra em curso e o assassinato do líder supremo, Ali Khamenei, colocam-se agora três possíveis desfechos: a queda do regime, um cenário de instabilidade profunda ou a resistência seguida de negociação.

Pedro Gonçalves

Os bombardeamentos conduzidos pelos Estados Unidos em junho provocaram um forte abalo no programa nuclear iraniano, atrasando durante anos a capacidade de Teerão fabricar uma arma atómica. Na altura, o presidente norte-americano Donald Trump afirmou que as instalações nucleares tinham sido “completamente e totalmente obliteradas”.

Menos de um mês antes da atual escalada, Trump voltou a invocar não apenas a ameaça nuclear, mas também a possibilidade de o Irão desenvolver mísseis intercontinentais capazes de atingir os Estados Unidos a curto prazo. No entanto, a Defense Intelligence Agency, agência de informações militares norte-americana, indicava que Teerão demoraria pelo menos uma década a alcançar essa capacidade.



Para além das justificações estratégicas apresentadas antes da ofensiva coordenada com Israel, o objetivo político da Administração Trump é claro: pôr fim ao regime dos aiatolas — ou, mais precisamente, ao sistema dominado pelos Guardiões da Revolução — e promover em Teerão uma liderança alinhada com os interesses norte-americanos e israelitas.

Perante a guerra em curso e o assassinato do líder supremo, Ali Khamenei, colocam-se agora três possíveis desfechos: a queda do regime, um cenário de instabilidade profunda ou a resistência seguida de negociação.

Derrocada do regime é improvável sem intervenção terrestre
Nem os Estados Unidos nem Israel demonstraram intenção de enviar tropas para o terreno. A experiência histórica mostra que bombardeamentos aéreos, por si só, raramente garantem uma mudança de regime. Durante a primeira Guerra do Golfo, em 1991, a derrota militar de Saddam Hussein não levou à sua queda, apesar da presença militar norte-americana na região.

No Irão, o descontentamento popular é real. As manifestações no final do ano passado resultaram em pelo menos 3.177 mortos, segundo dados oficiais — número que poderá ser muito superior. Em alguns bairros de grandes cidades, há relatos de celebrações pela morte de Khamenei. Contudo, a população permanece desarmada e sujeita à repressão das forças de segurança.

Apesar do desgaste, o regime mantém uma base social significativa, que ultrapassa os círculos militares. Persistem sectores que acreditam na missão ideológica e religiosa do país contra o chamado “Grande Satã” (EUA) e o “Pequeno Satã” (Israel). Quadros intermédios do aparelho estatal estão preparados para substituir dirigentes eliminados nos ataques recentes.

Embora tenham circulado vídeos de alegados membros do Corpo dos Guardiões da Revolução Islâmica a tentar atravessar a fronteira com o Afeganistão, não há provas sólidas de deserções em massa. Ao contrário do Iraque em 2003, não existe um exército estrangeiro pronto a impor uma transição política.

Queda pode abrir caminho ao caos interno
Mesmo que o regime colapse, a transição poderá mergulhar o país — com cerca de 93 milhões de habitantes — num período de instabilidade profunda. Não existe uma oposição estruturada com capacidade imediata para assumir o controlo do Estado.

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, manifestou apoio a Reza Pahlavi, filho do último xá deposto em 1979. Serviços de informação israelitas terão promovido a sua imagem nas redes sociais, e o seu nome foi entoado em protestos. Ainda assim, Trump recusou recebê-lo, considerando-o “simpático”, mas expressando dúvidas quanto à sua aceitação entre os iranianos.

A antiga principal força de oposição, a Organização dos Mujahedin do Povo, tem atualmente influência residual dentro do país.

Um vazio de poder poderá também intensificar reivindicações das numerosas minorias étnicas — azeris, curdos, turcomanos, árabes e baluchis — que representam cerca de 40% da população. Cinco partidos curdos clandestinos anunciaram recentemente a formação de uma aliança, sinalizando possíveis tensões territoriais.

Resistência prolongada e regresso às negociações
Uma terceira hipótese passa pela sobrevivência do regime, ainda que enfraquecido, seguida de uma negociação com Washington. O assassinato de Khamenei alimentou especulações de que os EUA possam procurar uma solução semelhante à ensaiada noutros contextos, alcançando um acordo com figuras internas dispostas a aceitar condições impostas externamente.

Esse cenário enfrenta, contudo, obstáculos ideológicos profundos. O Irão é o centro do islamismo xiita, comparado por muitos ao “Vaticano” dessa corrente religiosa. A probabilidade de surgirem dissidentes de topo dispostos a capitular é considerada reduzida.

Ainda assim, Trump afirmou no domingo à revista The Atlantic: “Querem falar, e eu aceitei falar, por isso falarei com eles.” As autoridades iranianas, por seu lado, sempre manifestaram disponibilidade para negociar desde que Washington começou a reforçar presença militar na região.

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, Badr Al-Busaidi, que mediou contactos entre as partes, mostrou-se recentemente satisfeito com progressos alcançados em Genebra. “Agora estamos a falar de armazenamento zero [de urânio]”, declarou ao programa “Face the Nation”, da CBS. “E isso é muito importante porque, se não se pode armazenar material enriquecido, então não há forma de fabricar uma bomba.”

No dia seguinte ao início da guerra, porém, o diplomata declarou-se “consternado” e escreveu na rede X: “Uma vez mais foram minadas negociações ativas e sérias.”

O regime iraniano, embora enfraquecido, poderá optar por resistir com o apoio de aliados no mundo xiita, incluindo os hutis no Iémen, o Hezbollah no Líbano e milícias no Iraque. Caso consiga aguentar, algumas capitais do Golfo poderão pressionar Washington a encerrar um conflito que prejudica economicamente a região.

Nos Estados Unidos, o prolongamento de uma ofensiva aérea e naval também poderá gerar custos políticos internos. O Pentágono confirmou já a morte dos três primeiros militares norte-americanos desde o início da operação.

Entre a mudança de regime, o caos interno ou uma negociação sob pressão, o futuro do Irão permanece em aberto. O desfecho dependerá não apenas da capacidade militar das partes, mas também da resistência interna do sistema político iraniano e da evolução do contexto regional.

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