Por Samuel Carvalho CEO da TelCables Europe e CMO Global da Angola Cables
O setor das telecomunicações e das tecnologias de informação convergiu, no Havai, no encontro anual de líderes das Telecomunicações “Pacific Telecommunications Council” (PTC’26). Embora o nome sugira um foco regional, o evento é o verdadeiro “Davos da infraestrutura digital”, onde se decide o destino das parcerias estratégicas e dos investimentos que suportarão a economia global nos próximos anos. Nesta edição de 2026, a tese central do fórum foi clara: o futuro da conectividade reside mais do que nunca na Convergência Atlântica.
Não estamos perante um crescimento orgânico, mas sim perante o que se designa como o “AI Infrastructure Supercycle“. Este superciclo acelerado exige uma mudança de paradigma. A inteligência artificial não requer apenas mais largura de banda, exige uma reconfiguração da lógica geográfica dos dados capaz de atender os dois modelos complementares de AI: o LLM ou Large Language Model, o cérebro de treino do modelo de AI que necessita com recurso a capacidade computação ( GPU’s) , e a inferência, o processo de o colocar a trabalhar ao serviço do utilizador, sendo a eficiência e capacidade que a inferência proporciona para gerar respostas rápidas depois do treino, um fator chave na viabilidade económica e prática da IA no mundo real. Foi consensual em vários painéis dedicado ao AI no PTC’26 que a conectividade e a rede devem evoluir para suportar cargas de trabalho “AI-native”, transformando a infraestrutura de uma simples commodity no sistema nervoso da civilização moderna.
O Impasse: Energia-IA-Sustentabilidade
O primeiro grande desafio a que assistimos na agenda do PTC foi o “Trilema da IA, ou, como equilibrar a necessidade massiva de energia, a urgência da sustentabilidade e a viabilidade de custos. Sobre o tema da escassez de energia, ficou claro o alerta dado pelos executivos que os sistemas elétricos e modelos de financiamento estão atrasados em relação à escala do compute.
As chamadas “Fábricas de IA”, Mega Campus como o Start Campus de Sines para a AI da Nvidia e Microsoft, os chamados projetos Exascale para abrigar a Open AI ou Stargate (Open AI, Oracle, Softbank), anunciado com o maior projeto da história (ainda recente do AI) ou data centers hiperscalers, enfrentam barreiras severas em mercados saturados na Europa e nos EUA, onde a energia é tradicionalmente cara ou escassa. Enquanto os mercados saturados na Europa e EUA enfrentam altos custos, o continente africano prevê adicionar 1.3 GW de capacidade até 2027.
Uma das possíveis soluções para este impasse reside na descentralização, para o Atlântico Sul. África e Marrocos ou Angola, por exemplo, surgem como um caso de estudo estratégico de convergência de fatores. Através de hubs como Luanda, é possível suportar cargas de IT superiores a 1 GW, com o diferencial crítico de serem alimentadas por mais de 73% de energia renovável. A Energia é a nova moeda de troca da infraestrutura: a capacidade de oferecer computação de alta performance com pegada de carbono reduzida.
Soberania Digital e o Hub Atlântico
A soberania digital, tornou-se um pilar da segurança nacional e económica. A dependência de rotas tradicionais, muitas vezes congestionadas ou vulneráveis a tensões geopolíticas, é hoje um risco operacional. Na PTC’26, a resiliência exige um “anel atlântico” que interligue Europa, Américas e África de forma direta e eficaz e com isso chegou o anúncio de novos projetos como o da operadora brasileira V.tal que anunciou no evento a construção do sistema de cabos submarinos Synapse, que ligará o Brasil aos EUA com 320 Tbps, incluindo uma interconexão estratégica em Fortaleza.
Neste desenho, após o crescimento de Miami e Fortaleza como segundo ponto mais ancorado por cabos submarinos, cidades como Lisboa e Luanda deixam de ser pontos isolados para se tornarem vértices de um ecossistema interconectado. Lisboa atua como o ponto de convergência europeu para os novos cabos de baixa latência, a porta nova de entrada da Europa depois de anos de domínio do Atlântico Norte com Dublin e Londres a definirem o mercado de dados, enquanto Fortaleza consolida a interligação com o mercado sul-americano garantido a proximidade Americana e Europeia. Este corredor Atlântico não serve apenas para transportar dados, mas serve para garantir que as nações e as empresas mantenham o controlo sobre onde e como a sua inteligência é processada e no fundo do mar, o controlo das Zonas Marítimas (ou as ZEE) com a implementação de cabos submarinos “Smart” sensorizados que permitem monitorizar o movimento do oceano e o clima em tempo real.
A Oportunidade Africana de 1,5 Triliões de Dólares
O défice de processamento em África representa uma oportunidade de 1,5 triliões de dólares. O uso de cabos como SACS, Monet, EllaLink e WACS cria uma ponte de alta velocidade que permite a África ser um participante ativo na criação de IA. No PTC’26, discutiu-se como estas rotas tornam o Atlântico Sul o caminho mais resiliente para as hyperscalers que precisam de alternativas às rotas tradicionais congestionadas para edge nodes de AI ou para AI factories.
A rota do Atlântico Sul é, hoje, o caminho mais resiliente e eficiente para as hyperscalers que pretendem servir este mercado em expansão. Ao ligar os EUA e a Europa diretamente a África através de cabos como o SACS, Monet, Elallink e WACS estamos a construir a ponte de alta velocidade que permitirá ao continente africano não ser apenas um consumidor de IA, mas um participante ativo na sua criação e processamento ligado a Europa e aos US.
Valor Além do Crescimento
O superciclo da IA exige mais do que crescimento de capacidade; exige a entrega de valor real e o pensamento. Em Honolulu, juntamente com as lideranças globais do setor, o nosso foco será demonstrar que a infraestrutura é o sistema nervoso da civilização moderna.
Esta fase de transformação exige então que deixemos de olhar para a infraestrutura como uma simples commodity para a encararmos como a fundação da soberania digital e da competitividade económica. A ascensão da IA generativa e dos sistemas agentivos requer uma capacidade de processamento e um transporte de dados sem precedentes, forçando uma reconfiguração global das rotas de informação.
O futuro não será construído apenas por quem tem os melhores algoritmos, mas por quem controla as rotas e os hubs onde esses algoritmos ganham vida. A Convergência Atlântica é o mapa desse novo mundo e as economias da CPLP com Lisboa, Fortaleza, l, Luanda, Angola só precisam abrir a porta para alimentar a próxima vaga de AI.




