Apenas metade das empresas está preparada para legislação sobre transparência salarial

Apenas cerca de metade das empresas está preparada para cumprir os requisitos de legislação sobre transparência salarial.

André Manuel Mendes

 

Apenas cerca de metade das empresas está preparada para cumprir os requisitos de legislação sobre transparência salarial. A conclusão é do mais recente estudo global Pay Transparency, divulgado pela Mercer, empresa do grupo Marsh (NYSE: MRSH), que reúne dados de mais de 1.600 organizações multinacionais em 60 mercados.



De acordo com o relatório, o nível de preparação das empresas aumentou de 32% em 2024 para quase 50% em 2025. Ainda assim, apesar de 77% das organizações estarem a desenvolver ou já terem desenvolvido estratégias e planos para a transparência salarial, apenas 14% implementaram plenamente essa abordagem em toda a organização.

O estudo identifica diferenças regionais significativas. As empresas sediadas nos países nórdicos, nos Estados Unidos e no Canadá lideram em termos de preparação, enquanto as organizações no Reino Unido, na Ásia e no Pacífico apresentam níveis inferiores. Na Europa, apenas 9% das empresas afirmam ter a sua estratégia de transparência totalmente implementada, caso o prazo para os Estados-Membros promulgarem a diretiva da União Europeia sobre transparência salarial se mantenha para junho deste ano.

A conformidade com a legislação continua a ser o principal motor da transparência salarial: quase 90% das organizações nos EUA, no Canadá, na Europa e no Reino Unido apontam-na como motivador fundamental. Já o compromisso com os colaboradores (56%) e a competitividade face ao mercado (55%) são referidos por pouco mais de metade dos inquiridos.

“Embora muitas empresas estejam focadas no cumprimento dos requisitos legais, um número crescente está a adotar a transparência salarial como um impulsionador para desenvolver os seus processos de recursos humanos incluindo a revisão/ definição da arquitetura funcional ou a criação de estruturas salariais mais claras, promovendo uma cultura de mais confiança nos colaboradores e candidatos”, afirma Marta Dias, Rewards Leader da Mercer Portugal.

Panorama nacional

Em Portugal, os dados apontam para uma evolução positiva. Segundo outro estudo da Mercer – Readiness Assessment – Transparência Salarial –, a percentagem de empresas que trabalham ativamente este tema aumentou de 59% em 2024 para 72% em 2025.

Apesar do progresso, persistem desafios relevantes. Quatro em cada dez organizações admitem ter apenas uma noção básica de transparência salarial, o que afeta tanto empresas que já trabalham o tema como as que ainda não o fazem. Entre as organizações que já abordam a transparência salarial, 52% revelam uma familiaridade “moderada”. Entre as que ainda não iniciaram esse trabalho, 54% têm apenas uma noção básica sobre o assunto.

“A transparência salarial está a ganhar terreno em Portugal, com as organizações a reconhecerem a sua importância para o futuro do trabalho. No entanto, é essencial que as empresas invistam numa arquitetura funcional e processos robustos, de modo a prepararem-se para a nova legislação e, sobretudo, a promover ambientes de trabalho mais justos, equitativos e competitivos”, diz João Pacheco, Pay Equity and Transparency Expert da Mercer Portugal.

Expectativas dos colaboradores em alta

As expectativas de colaboradores e candidatos estão igualmente a evoluir. O relatório Inside Employees’ Minds, também da Mercer, revela que os colaboradores que consideram a sua remuneração justa estão 85% mais envolvidos e 60% mais comprometidos.

Neste contexto, as empresas enfrentam uma pressão crescente não apenas para garantir justiça e consistência remuneratória, mas também para explicar de forma clara como os salários são definidos, como evoluem e de que forma se relacionam com o desempenho e a progressão.

Uma das áreas onde se antecipa maior avanço é na divulgação de bandas salariais em ofertas de emprego. A previsão aponta para um aumento de 60% em 2024 para 94% até ao final de 2026. Ainda assim, as organizações mantêm cautela na partilha de informações mais sensíveis, como diferenças salariais e resultados ajustados em matéria de equidade, limitando a comunicação ao estritamente exigido por regulamentação.

Transparência como fator reputacional

A transparência salarial assume também uma dimensão reputacional crescente. A diretiva europeia prevê que, em contexto de contratação pública, possam ser solicitados indicadores sobre equidade e transparência, com potencial impacto nas decisões de adjudicação. Paralelamente, regulamentos como a Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa da UE (CSRD) integram métricas de equidade salarial nos relatórios corporativos.

Apesar deste enquadramento, apenas 12% das organizações referem ter estabelecido procedimentos de comunicação para responder a consultas públicas sobre remuneração por parte de candidatos, meios de comunicação social ou investidores. As empresas com abordagens consistentes tendem a beneficiar, enquanto práticas descoordenadas podem comprometer a reputação.

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