Joom já investiu 40 milhões na economia portuguesa e têm mais 160 para os próximos anos. “É importante que o país mantenha condições atrativas”, diz o CEO

Em entrevista à Executive Digest, Ilya Shirokov, CEO da Joom, revela como a filosofia “human-centric” da empresa se traduz em prática, os desafios e oportunidades de integrar IA nas equipas, e a visão da empresa sobre o papel do talento e da liderança na próxima década.

André Manuel Mendes

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma tendência tecnológica para se tornar um fator transformador na forma como as empresas funcionam, recriam valor e escalam os seus negócios. Para a Joom, a IA não é apenas uma ferramenta de apoio: é um elemento central da sua estratégia, presente em todas as áreas da empresa, desde o desenvolvimento de código à experiência do cliente e à gestão de startups.

Em entrevista à Executive Digest, Ilya Shirokov, CEO da Joom, revela como a filosofia “human-centric” da empresa se traduz em prática, os desafios e oportunidades de integrar IA nas equipas, e a visão da empresa sobre o papel do talento e da liderança na próxima década.



 

A Joom defende uma abordagem human-centric da IA. Pode explicar como esta filosofia se traduz na prática no dia a dia da empresa?

A IA aumenta significativamente a eficácia dos colaboradores e, em muitos casos, esse efeito é verdadeiramente impressionante. No entanto, também pode acontecer o contrário: quando utilizada por pessoas sem a preparação adequada, a IA pode não só deixar de aumentar a eficiência como até reduzi-la.

Consequentemente, os requisitos de competências para os colaboradores na era da IA estão a crescer de forma substancial. A diferença de eficácia entre pessoas inteligentes, rápidas a aprender e abertas a novas abordagens e colaboradores medianos continuará a aumentar. Durante algum tempo, o desenvolvimento de ferramentas e frameworks reduziu essa diferença, mas agora ela está novamente a crescer – e isto aplica-se não apenas aos engenheiros, mas praticamente a todas as profissões criativas.

Com base neste contexto, estruturámos a nossa abordagem. Promovemos a utilização da IA ao máximo em todas as áreas da empresa. Atualmente, cerca de metade de todo o código do Joom Group é escrito com apoio de IA; os recrutadores utilizam sistemas de IA para encontrar talento. Incentivamos o acesso a todas as ferramentas, a experimentação e a comparação das soluções mais modernas. Investimos também em formação e partilha de conhecimento através de cursos internos e seminários dedicados à IA.

Ao mesmo tempo, estamos a aumentar a densidade de talento, elevando o nível de exigência no recrutamento – em 2025, menos de 1% dos candidatos recebeu uma oferta – e valorizando qualidades como curiosidade e capacidade de aprendizagem. Não avaliamos indicadores secundários como “utilização de IA no trabalho”; avaliamos resultados. Quem domina as novas ferramentas assume mais tarefas e entrega mais rapidamente; com os restantes, seguimos caminhos diferentes.

 

De que forma a IA está a transformar a criação, gestão e escalabilidade das startups hoje em dia?

A comunidade de investimento espera o aparecimento do primeiro “unicórnio de uma só pessoa” – muitos acreditam que isso acontecerá nos próximos anos. Isto demonstra o impacto radical da IA no desenvolvimento de startups. Hoje, um empreendedor talentoso com uma boa ideia pode recorrer a agentes de IA em vez de colaboradores humanos. Estes agentes já estão a começar a executar tarefas básicas em desenvolvimento, design ou marketing. Embora ainda não o façam de forma perfeita, a evolução é exponencial, e um ponto de viragem pode surgir a qualquer momento.

Já não é surpreendente ver empresas com apenas algumas dezenas de colaboradores a gerar mais de 100 milhões de dólares em receitas – algo que, há apenas alguns anos, teria sido considerado extraordinário.

 

Que exemplos concretos de processos ou decisões da Joom foram significativamente melhorados pela IA?

É difícil identificar processos que não tenham sido alterados pela IA – praticamente todos foram transformados.

No nosso negócio principal, o Marketplace, utilizamos ativamente a IA em diferentes áreas. Por exemplo, implementámos um sistema que ajuda a compreender melhor as pesquisas dos utilizadores e a melhorar os resultados de pesquisa. Outro exemplo é o bot de IA na página inicial. Implementámos uma tecnologia que funciona como um consultor de vendas virtual. Utilizamos também recomendações contextuais baseadas em IA, que sugerem produtos complementares relevantes com base no contexto atual de compra.

Por exemplo, quando um cliente está a ver uma televisão, pode ver suportes para TV ou pilhas para o comando; ou, ao procurar patins em linha, pode ver equipamento de proteção. Isto ajuda os clientes a encontrar mais facilmente artigos úteis relacionados e melhora a sua experiência global de compra.

No caso do JoomPro, o primeiro marketplace B2B transfronteiriço end-to-end do mundo, os clientes veem o preço final grossista, incluindo logística, alfândegas e impostos. Antes da IA generativa, tentámos resolver isto com machine learning tradicional, mas a precisão não era suficiente. Com a IA moderna, gerimos mais de 100 milhões de SKUs com previsões de preços precisas.

O JoomPulse é outro exemplo. Trata-se de um serviço de analytics em que os vendedores descrevem uma categoria de produto em linguagem simples e recebem, em minutos, um relatório de dez páginas sobre concorrência, tendências e margens. Isso demoraria semanas a consultores humanos.

 

Qual a importância e as oportunidades que a Joom vê no mercado português?

Portugal é a localização da nossa sede, um polo intelectual que nos permite atrair os melhores especialistas do mundo. É importante que o país mantenha condições atrativas para talento altamente qualificado. Nos últimos dois anos, investimos mais de 40 milhões de euros na economia portuguesa e, há um ano, anunciámos planos para investir mais 160 milhões nos próximos anos. Estamos a cumprir estes planos e poderemos até superar o objetivo.

 

Na sua perspetiva, quais são os maiores erros que empresas cometem ao implementar IA?

Como referi, a IA aumenta a eficácia dos melhores colaboradores, mas pode prejudicar os colaboradores medianos. Por isso, deve ser implementada onde existe talento de topo. Outro erro comum é dar acesso a muitas ferramentas sem controlo, o que conduz ao desperdício. Além disso, a IA ainda comete erros e “alucina”, pelo que um modelo deve validar as decisões de outro.

 

A Joom valoriza o talento sénior e adaptável. Que características considera mais críticas nos líderes do futuro?

O ritmo da mudança é exponencial e o conhecimento torna-se obsoleto em poucos meses. Assim, a experiência torna-se menos relevante, enquanto a motivação, a curiosidade, a abertura à mudança, a aprendizagem rápida e as competências de comunicação se tornam essenciais. Os vencedores não são os que não têm fraquezas, mas os que têm pontos fortes muito sólidos e distintos.

 

Que competências empreendedores e líderes devem começar a desenvolver hoje para estarem preparados para a próxima década?

É fundamental aprender a aprender novamente: experimentar tecnologias, ver o que funciona e manter-se aberto à mudança. A velocidade é crítica – os “peixes mais rápidos” comem os “peixes grandes”. Na Europa, isto é difícil devido à cultura de equilíbrio entre vida profissional e pessoal, o que pode levar a um atraso tecnológico. A mudança é sempre difícil, e é preciso estar preparado.

 

Como vê a evolução da IA e da inovação tecnológica nos próximos cinco anos?

A IA deixará de ser uma ferramenta e passará a ser infraestrutura, como a internet ou a eletricidade. Tal como a internet levou à monopolização de setores – Google na pesquisa, Amazon no retalho – a IA irá intensificar esta tendência. As empresas que dominarem a IA terão enormes vantagens em escala e eficiência. A IA continuará também a eliminar fronteiras, tornando a localização de produtos instantânea e facilitando a expansão internacional.

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