A migração das grandes fortunas está a acelerar a um ritmo sem precedentes. Segundo divulgou esta quinta-feira o canal americano ‘CNBC’, consultores especializados em mobilidade internacional e planeamento de residência afirmam estar perante a maior vaga de deslocação de riqueza privada alguma vez registada. O fenómeno está a ser impulsionado por tensões geopolíticas, alterações súbitas de políticas públicas e um ambiente global cada vez mais imprevisível.
De acordo com um relatório do banco suíço UBS, 36% dos 87 bilionários inquiridos já mudaram de país pelo menos uma vez em 2025, enquanto 9% estavam a ponderar fazê-lo. Entre os bilionários com 54 anos ou menos, 44% mudaram-se no ano passado. A conclusão do banco é clara: trata-se da maior migração de riqueza privada da história.
Risco político passa a ser risco financeiro
A nova vaga distingue-se por uma mudança de mentalidade. O chamado “risco jurisdicional” — instabilidade política, alterações fiscais, tensões geopolíticas — passou a ser tratado como risco financeiro que deve ser diversificado, tal como qualquer carteira de investimentos.
Deepesh Agarwal, da Farro & Co., explicou à ‘CNBC’ que as famílias mais ricas encaram agora a residência e a cidadania como ativos estratégicos. A geopolítica, que antes era uma consideração secundária, tornou-se central. Mudanças que antes levavam décadas podem hoje ser implementadas num único ciclo político.
Um exemplo citado é o Reino Unido, onde a abolição do regime fiscal para não domiciliados, em abril de 2025, desencadeou uma reavaliação profunda entre os residentes mais ricos. A consultora Henley & Partners estima que o país tenha registado uma saída líquida de 16.500 milionários em 2025, levando consigo cerca de 92 mil milhões de dólares (aproximadamente 84,6 mil milhões de euros), face a 9.500 no ano anterior.
Migração defensiva substitui otimismo
Se noutras épocas a mudança de país era motivada por oportunidades de crescimento ou vantagens fiscais, o atual movimento é descrito como defensivo. Proteção de ativos, continuidade geracional e flexibilidade operacional passaram a liderar as prioridades.
A erosão da confiança nos sistemas políticos também pesa. Uma sondagem da consultora fiscal Greenback indica que 49% dos cidadãos americanos residentes no estrangeiro estão a considerar renunciar à cidadania, face a 30% no ano anterior. Mais de metade aponta insatisfação com o Governo americano ou com a direção política do país.
Para onde estão a ir os megaricos?
Apesar do caráter global do fenómeno, os destinos concentram-se num número relativamente reduzido de jurisdições consideradas previsíveis e juridicamente robustas.
Os Emirados Árabes Unidos surgem como o principal destino. A ausência de imposto sobre rendimento pessoal, património ou mais-valias, aliada ao regime flexível do Visto Gold, transformou o país num polo de atração. A Henley & Partners estima uma entrada líquida de 9.800 milionários no último ano — o valor mais elevado a nível mundial.
A Europa mantém-se relevante. Programas de vistos gold em Portugal e Grécia continuam a captar interesse. Já Itália, Mónaco e Suíça atraem famílias que privilegiam estabilidade a longo prazo e segurança fiscal.
Singapura mantém-se atrativa para quem valoriza estabilidade regulatória e infraestrutura financeira sólida, embora os critérios de entrada mais exigentes limitem o acesso.
A Arábia Saudita reforçou o seu Programa de Residência Premium, emitindo mais de 8.000 autorizações desde 2024. No Caribe, programas de cidadania por investimento em Antígua e Barbuda, Granada e São Cristóvão e Névis são usados como complemento estratégico às residências europeias.
O que emerge, segundo a ‘CNBC’, é uma nova geografia da riqueza global. A migração dos megaricos deixou de ser marginal e tornou-se estrutural. Mais do que procurar ganhos fiscais imediatos, as famílias de altíssimo património estão a construir redes de segurança transnacionais, diversificando passaportes e residências como quem diversifica ações e obrigações.







