Antissemitismo na Europa dispara e estes são os países mais afetados

A perceção de que o antissemitismo é um problema real e crescente está a consolidar-se em grande parte da União Europeia.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 10, 2026
12:07

A perceção de que o antissemitismo é um problema real e crescente está a consolidar-se em grande parte da União Europeia. Mais de metade dos cidadãos europeus considera que a hostilidade contra judeus constitui um problema no seu país, segundo novos dados do Eurobarómetro, que apontam para um aumento da preocupação pública, tanto nas ruas como nas escolas e no espaço digital.

França, Itália e Suécia surgem como os países onde a população mais frequentemente classifica o fenómeno como significativo, enquanto Estónia, Finlândia e Letónia registam os níveis mais baixos de perceção de gravidade.

As formas de antagonismo mais referidas incluem hostilidade em espaços públicos, graffiti antissemita e discursos de ódio online, três manifestações que se tornaram recorrentes no quotidiano europeu.

O inquérito revela ainda diferenças claras no perfil de quem identifica o antissemitismo como ameaça. Mulheres, residentes em zonas urbanas, pessoas pertencentes a grupos minoritários e cidadãos com níveis de escolaridade mais elevados tendem a reconhecer mais facilmente o problema.

Também o contacto pessoal parece influenciar a perceção. Entre os inquiridos que têm amigos ou conhecidos judeus, 67% reconhecem o antissemitismo como um problema, valor que desce para 52% entre aqueles que não têm esse tipo de ligação.

Conflitos no Médio Oriente influenciam perceções
A guerra surge como um dos principais fatores explicativos. Quase sete em cada dez europeus acreditam que os conflitos no Médio Oriente moldam a forma como as comunidades judaicas são vistas nos seus países.

O alerta é reforçado por organismos internacionais. Num relatório recente sobre o antissemitismo nas escolas, o diretor-geral da UNESCO, Khaled El-Enany, afirmou que o “discurso de ódio, nomeadamente o antissemitismo e a negação do Holocausto, atingiu níveis que não se viam desde a Segunda Guerra Mundial”, sublinhando a gravidade da situação.

Tendência de agravamento nos últimos cinco anos
Quase metade dos europeus considera que o antissemitismo aumentou no seu país nos últimos cinco anos. Essa perceção é particularmente forte nos Países Baixos, na Suécia e na Dinamarca.

Em sentido contrário, apenas 9% dos inquiridos acreditam que a situação melhorou, sobretudo em Malta, na Roménia e na Polónia.

De forma mais ampla, mais de um terço dos cidadãos da UE considera que todas as formas de antissemitismo são problemáticas, o que representa uma subida de 10 pontos percentuais face a 2018.

Hostilidade nas ruas e ódio online entre os casos mais citados
As manifestações mais visíveis do fenómeno continuam a ocorrer no espaço público. Ameaças e expressões de hostilidade dirigidas a judeus na rua ou noutros locais abertos são vistas como problema sobretudo por inquiridos em França, Itália e Países Baixos.

No ambiente digital, os mais jovens mostram maior sensibilidade. Pessoas entre os 15 e os 24 anos referem com mais frequência o antissemitismo na internet do que cidadãos com 55 ou mais anos. O próprio relatório do Eurobarómetro aponta que esta diferença é “provavelmente devido a um fosso geracional de exposição”.

Incidentes generalizados nas escolas europeias
A preocupação estende-se ao sistema educativo. De acordo com o estudo da UNESCO, mais de três quartos dos professores inquiridos em 23 Estados-membros afirmaram já ter presenciado incidentes antissemitas nas salas de aula.

Entre os docentes, 61% relataram episódios de negação ou distorção do Holocausto por parte de alunos, enquanto 42% disseram ter testemunhado atitudes antissemitas por parte de outros professores.

Quase metade referiu ainda situações em que estudantes fizeram saudações nazis, desenharam ou exibiram símbolos associados ao regime.

Apesar da dimensão do problema, a maioria dos profissionais sente falta de preparação. Cerca de 70% dos professores afirmaram nunca ter recebido formação específica para reconhecer e lidar com o antissemitismo contemporâneo. El-Enany reforçou essa lacuna ao afirmar que “a maioria dos professores nunca recebeu formação específica para enfrentar esta realidade, incluindo as consequências relacionadas com o desenvolvimento da inteligência artificial”.

Menos de um terço participou em ações de formação promovidas por organizações especializadas externas às escolas.

Os dados apontam, assim, para uma combinação de crescimento da hostilidade social, impacto dos conflitos internacionais e insuficiente preparação institucional, fatores que contribuem para manter o antissemitismo como uma das principais preocupações em matéria de coesão social e direitos humanos na União Europeia.

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