Falhas nas comunicações após tempestades levam portugueses a recorrer ao Starlink de Elon Musk

Anacom reconhece que “a utilização de sistemas via satélite, como, por exemplo, telefones via satélite, podem ajudar nestas situações”, sublinhando, no entanto, que é indispensável garantir sistemas redundantes de energia para assegurar a continuidade do serviço

Revista de Imprensa
Fevereiro 9, 2026
9:26

A falha prolongada das comunicações nas regiões mais afetadas pelas depressões Kristin e Leonardo está a levar alguns residentes a recorrer à internet por satélite, nomeadamente através do serviço Starlink. A Autoridade Nacional de Comunicações admite que esta pode ser uma solução temporária para mitigar a ausência de rede, enquanto a reposição total dos serviços não estiver concluída, uma vez que a recuperação das telecomunicações depende, em grande parte, do restabelecimento integral da energia elétrica.

Em resposta ao ‘Jornal de Negócios’, a Anacom reconhece que “a utilização de sistemas via satélite, como, por exemplo, telefones via satélite, podem ajudar nestas situações”, sublinhando, no entanto, que é indispensável garantir sistemas redundantes de energia para assegurar a continuidade do serviço. Apesar de funcionarem de forma independente das redes terrestres, os equipamentos fixos do Starlink continuam a necessitar de eletricidade para operar.

O regulador destaca que, ao disponibilizarem acesso à internet, estas soluções permitem comunicações eficazes através de videochamadas, troca de dados e outras funcionalidades essenciais, tendo vindo a ser adotadas tanto por organismos públicos como por utilizadores individuais, sobretudo em regiões remotas ou com fraca cobertura das redes tradicionais. Nas zonas atingidas pelo mau tempo que assola Portugal desde o final de janeiro, há utilizadores que conseguiram manter contacto com outras localidades graças ao recurso à rede da empresa de Elon Musk.

Com relatos de dificuldades persistentes no contacto com familiares, alguns consumidores estão a aderir ao serviço “em viagem”, com um custo mensal de 40 euros para 100 gigabytes ou de 89 euros na versão ilimitada, a que acresce a aquisição de um kit mini por 199 euros. Existe ainda a opção “residencial lite”, com um valor mensal de 29 euros, beneficiando da ampla cobertura do sistema em Portugal, desenvolvido pela SpaceX.

Segundo o ‘Jornal de Negócios’, estes preços refletem uma descida significativa face aos valores praticados quando a internet por satélite chegou ao mercado. O aumento do número de satélites em órbita permitiu reduzir os custos para o utilizador final, tornando esta alternativa mais acessível do que no passado.

O recurso ao Starlink surge num momento em que a Anacom apelou às operadoras para permitirem, assim que possível, o roaming nacional temporário, com a abertura das redes enquanto persistirem falhas de serviço, de forma a garantir a continuidade das comunicações e a mitigar o impacto da catástrofe. Ainda assim, a recuperação está a ser lenta, devido aos danos extensos em postes, torres e mastros de comunicações, bem como à demora na reposição da energia elétrica.

Mais de uma semana após a passagem da depressão Kristin, a Anacom admite que a situação se mantém “complexa”. Milhares de técnicos estão no terreno, mas muitos sites móveis continuam inoperacionais por falta de energia, e a rede fixa só será reposta à medida que as habitações voltem a ter eletricidade, já que os routers dependem desse fornecimento para funcionar.

Na passada quarta-feira, o regulador indicou que mais de 300 mil clientes foram afetados pelo mau tempo em distritos como Coimbra, Castelo Branco, Faro, Leiria, Lisboa, Portalegre, Porto, Santarém, Setúbal e Viseu. A tempestade deixou pelo menos seis mortos, vários feridos e desalojados, provocando cortes de energia, água e comunicações, além de danos significativos em estradas, linhas ferroviárias e edifícios. Leiria, Coimbra e Santarém foram dos distritos mais atingidos, tendo o Governo anunciado a intenção de decretar situação de calamidade nas zonas mais afetadas.

Apesar da utilidade imediata do Starlink, o seu protagonismo poderá ser limitado no médio prazo. A União Europeia está a investir em projetos próprios de comunicações por satélite, como o IRIS² e o Govsatcom, embora estes sistemas só devam estar plenamente operacionais em 2029 e estejam, para já, direcionados sobretudo para fins militares. O projeto IRIS² representa um investimento europeu superior a 10 mil milhões de euros e pretende afirmar a soberania digital europeia face ao Starlink, que estima ter cerca de 15 mil satélites em órbita até 2031.

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