A projeção final da Pitagórica para o JN, TSF, TVI e CNN Portugal não deixa grandes dúvidas quanto ao vencedor das eleições presidenciais deste domingo, mas revela também vários fatores com peso político relevante. António José Seguro surge destacado na frente, com 67,8% das intenções de voto, podendo aproximar-se de um resultado histórico. André Ventura, com 32,2%, deverá ser derrotado, mas poderá ainda assim reforçar a sua posição no espaço político da direita.
Com base nesta projeção, António José Seguro não só caminha para a vitória como pode aspirar a um dos melhores resultados de sempre em eleições presidenciais. No limite superior da margem de erro, o candidato poderá alcançar 71,4%, ultrapassando os 70,3% obtidos por Mário Soares em 1991, aquando da sua reeleição para um segundo mandato em Belém.
A análise sublinha, contudo, que as condições políticas não são diretamente comparáveis. Mário Soares beneficiou então do apoio incondicional do PS desde o início da campanha e do apoio tácito do primeiro-ministro Cavaco Silva, que optou por deixar o PSD fora da corrida. No caso de Seguro, o apoio formal do PS só surgiu em outubro e enfrentou resistências internas, enquanto Luís Montenegro manteve uma postura de rigorosa neutralidade após a eliminação de Marques Mendes na primeira volta.
Se as eleições se realizassem hoje, André Ventura seria derrotado de forma clara. Ainda assim, os resultados projetados permitem ao líder do Chega encontrar motivos para assinalar politicamente a noite eleitoral. Com 32,2% — podendo chegar a 35,8% no limite da margem de erro — Ventura supera a percentagem obtida pela AD nas legislativas de maio de 2025, quando Luís Montenegro alcançou 31,2%.
Este desempenho poderá ser suficiente para Ventura reforçar a sua reivindicação da liderança da direita, já assumida após a primeira volta das presidenciais. Subsiste, porém, uma incógnita relevante: mesmo com uma percentagem superior, conseguirá aproximar-se dos quase dois milhões de votos absolutos alcançados por Montenegro nas legislativas?
Abstenção, indecisos e votos brancos podem influenciar o resultado
Apesar da vantagem expressiva de Seguro, a sondagem identifica três grupos de eleitores capazes de baralhar as contas finais. Desde logo, os abstencionistas, cuja dimensão continua impossível de antecipar. Depois, os indecisos, que representam 7,4% do eleitorado e se mantiveram estáveis ao longo das duas semanas de campanha analisadas. Por fim, os eleitores que admitem votar em branco ou nulo, num valor elevado de 9%.
A confirmar-se, esta percentagem de votos brancos e nulos seria inédita em eleições presidenciais. O valor mais elevado neste século ocorreu em 2011, durante o segundo mandato de Cavaco Silva, com cerca de 6%, sendo que nas restantes eleições presidenciais os votos brancos e nulos rondaram, em regra, os 2%.
A análise por segmentos da amostra destaca um grupo particularmente decisivo: os eleitores que votaram em João Cotrim Figueiredo na primeira volta. Embora a maior fatia destes eleitores indique agora intenção de voto em António José Seguro (46,2%), há ainda 11,3% que permanecem indecisos e 25,8% que admitem votar em branco ou nulo.
Tendo em conta que Cotrim Figueiredo recolheu cerca de 900 mil votos, mais de 300 mil eleitores encontram-se numa situação de indefinição política, com potencial impacto no resultado final.
Diferenças de género e idade marcam o eleitorado
A sondagem confirma um desequilíbrio de género consistente ao longo de toda a campanha. António José Seguro mantém uma vantagem clara entre as mulheres, com 61%, face a 51,9% entre os homens. No início da campanha, a diferença era de 16 pontos, mas entre 26 de janeiro e 5 de fevereiro o candidato perdeu dez pontos junto do eleitorado feminino, recuperando três nos últimos dias.
No caso de André Ventura, o apoio continua a ser mais forte entre os homens (30,9%) do que entre as mulheres (23,2%). Ao longo da campanha, perdeu três pontos entre os homens e ganhou outros três entre as mulheres.
Quanto aos escalões etários, Seguro lidera em todos. O seu melhor resultado surge entre os eleitores mais velhos, com 61,7%, mas foi apenas entre os mais jovens que conseguiu crescer ao longo da campanha da segunda volta. Ventura apresenta o pior desempenho entre eleitores com 55 ou mais anos (23,7%) e só perdeu apoio entre os mais jovens, dos 18 aos 34 anos.









