Um relatório de investigação divulgado esta semana pela organização BLOOM acusa a administração americana liderada por Donald Trump de interferência direta na democracia parlamentar europeia, através de uma estratégia concertada com lobbies industriais dos combustíveis fósseis e setores da direita conservadora europeia.
De acordo com a ‘BLOOM’, essa atuação esteve na origem do desmantelamento progressivo do Pacto Ecológico Europeu e da Diretiva de Diligência Devida em Sustentabilidade Empresarial, considerada uma das peças-chave da legislação climática da União Europeia.
Segundo a investigação, publicada em coordenação com os meios de comunicação ‘Der Spiegel’, na Alemanha, e ‘Aftonbladet’, na Suécia, a viragem política em Bruxelas culminou, em dezembro de 2025, com a aprovação no Parlamento Europeu do primeiro ato legislativo destinado a fragilizar o Pacto Verde. Essa decisão resultou de uma aliança inédita entre a direita conservadora e a extrema-direita europeia, após meses de pressão organizada a partir dos Estados Unidos.
O papel de Jörgen Warborn na ofensiva contra a legislação climática
A investigação identifica o eurodeputado sueco Jörgen Warborn, do Partido Popular Europeu, como uma figura central nesse processo. Relator do primeiro pacote Omnibus que conduziu à revisão da Diretiva Europeia sobre diligência corporativa, Warborn terá funcionado como interlocutor privilegiado dos interesses americanos dentro das instituições europeias.
De acordo com o relatório, o eurodeputado reuniu-se mais de dez vezes, entre janeiro e outubro de 2025, com lobistas industriais dos Estados Unidos, incluindo representantes da Câmara de Comércio Americana na Bélgica. Só com essa entidade, Warborn terá mantido quatro encontros num único ano, um número considerado excecional para um membro do Parlamento Europeu.
Durante os debates parlamentares, o eurodeputado adotou uma estratégia alinhada com a administração Trump e com grandes grupos industriais dos setores energético, petroquímico e financeiro, visando enfraquecer mecanismos que responsabilizariam juridicamente as multinacionais pelos impactos ambientais e sociais das suas cadeias de valor.
Ligações entre a direita europeia e redes trumpistas
O relatório traça ainda um retrato alargado das ligações entre dirigentes da direita europeia e círculos políticos próximos de Donald Trump. Para além da sua atividade como eurodeputado, Jörgen Warborn preside a dois lobbies empresariais ligados à União Internacional da Democracia, uma organização criada nos anos 1980 para promover uma agenda conservadora e neoliberal a nível global.
Segundo a ‘BLOOM’, estas ligações colocam Warborn numa situação de potencial conflito de interesses, agravada pela fragilidade das regras de transparência adotadas pelo Parlamento Europeu após o escândalo Qatargate. A investigação sublinha que as viagens e encontros internacionais do eurodeputado ilustram lacunas persistentes na regulação da atividade de lobbying em Bruxelas.
A atuação não terá sido isolada. O relatório refere encontros de outros dirigentes do PPE com responsáveis da administração Trump e com a influente Heritage Foundation, incluindo reuniões que terão contado com a participação do presidente do PPE, Manfred Weber, da vice-presidente Dolors Montserrat e da presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.
Riscos para a soberania e para o futuro da União Europeia
Segundo a ‘BLOOM’, a aproximação entre a direita conservadora e a extrema-direita europeia representa um risco sistémico para a soberania da União Europeia, ao quebrar o cordão sanitário historicamente imposto a forças políticas hostis ao Estado de direito. A organização alerta que este alinhamento com o trumpismo ameaça a estabilidade democrática, a economia europeia e os compromissos climáticos da UE.
A investigação destaca ainda que, após esta viragem política, o PPE e Jörgen Warborn passaram a defender a retoma célere do processo parlamentar do acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos, suspenso após ameaças feitas por Donald Trump no início de 2026.
Apelo a uma comissão de inquérito e a reformas urgentes
Perante as conclusões do relatório, a ‘BLOOM’ apela à criação urgente de uma Comissão de Inquérito no Parlamento Europeu para investigar a interferência estrangeira nas instituições comunitárias. A organização anunciou também que encaminhou a investigação para o comité responsável pela conduta dos eurodeputados, complementando uma queixa apresentada em dezembro de 2025 contra Jörgen Warborn.
Entre as medidas defendidas estão o reforço dos mecanismos de integridade dos representantes europeus, a criação de uma entidade independente com poderes sancionatórios, a limitação da influência das empresas de combustíveis fósseis nas políticas europeias e o alargamento da jurisdição do Ministério Público Europeu a crimes que afetem os interesses democráticos da União. Segundo a ‘BLOOM’, estas reformas são essenciais para proteger a democracia europeia, a legislação ambiental e o futuro climático do continente.











