O Banco Central Europeu (BCE) senta-se esta quinta-feira à mesa para a reunião de política monetária de março, onde deverá manter as taxas de juro inalteradas pela quinta vez consecutiva. No entanto, os argumentos a favor de um corte preventivo começam a ganhar força.
Com esta decisão a ser unânime por parte dos analistas, deve-se manter a taxa aplicável à facilidade permanente de depósito nos 2%, a taxa associada às principais operações de refinanciamento nos 2,15% e a taxa de cedência de liquidez nos 2,40%.
De acordo com Michael Krautzberger, Diretor de Investimento Global (CIO) de Mercados Públicos da Allianz Global Investors (Allianz GI), apesar de a fasquia para um novo corte continuar elevada, o atual contexto macroeconómico e político pode abrir espaço a uma descida das taxas já na reunião de março.
“A economia da Zona Euro continua a crescer a um ritmo sólido, o desemprego mantém-se baixo e estável e a inflação encontra-se próxima do objetivo”, recorda o responsável, sublinhando que a taxa diretora do BCE já se situa num intervalo considerado neutral. Este enquadramento explica a ausência de urgência para uma alteração imediata da política monetária.
Ainda assim, a Allianz GI destaca que os riscos de inflação a médio prazo continuam a inclinar-se em baixa. A inflação caiu abaixo da meta em dezembro, um mês antes do previsto, e tanto a inflação global como a subjacente poderão ficar aquém das projeções do BCE. A recente valorização do euro face ao dólar, em cerca de 3%, acrescenta também pressão desinflacionista.
No plano do crescimento económico, os dados da Zona Euro têm sido mistos. Os números efetivos indicam que o PIB terá encerrado 2025 de forma ligeiramente mais robusta do que o antecipado pelo BCE, embora alguns indicadores de confiança empresarial revelem maior volatilidade. Na Alemanha, a subestimação dos empréstimos do governo para 2025 poderá, segundo a Allianz GI, aliviar receios de um estímulo fiscal excessivamente inflacionista.
O risco geopolítico também diminuiu, com a dissipação das tensões entre os Estados Unidos e a União Europeia relacionadas com tarifas comerciais, cenário que, caso se tivesse materializado, poderia ter levado o BCE a agir mais cedo.
Roman Ziruk, Senior Market Analyst da Ebury, considera que se há poucas semanas a maioria dos investidores antecipava uma subida das taxas como próximo passo do BCE, atualmente atribuem cerca de 20% de probabilidade a um corte das taxas ainda antes do final do ano.
O especialista explica ainda que, embora seja expectável que Christine Lagarde mantenha um discurso prudente nesta reunião, qualquer referência ao impacto da valorização do euro será observada com particular atenção pelos mercados. Mais do que uma mudança de tom, o grau de reconhecimento do tema poderá dar pistas sobre a importância crescente da taxa de câmbio nas decisões futuras do BCE.
De resto, acredita a comunicação deverá ser semelhante à da reunião de dezembro, com a presidente do BCE a reiterar que a política monetária está “num bom lugar”. A ausência de novas projeções económicas — que só serão divulgadas no próximo mês — reforça a expectativa de continuidade e estabilidade na mensagem do banco central europeu.




