Portugal está entre os países diretamente afetados por uma corrida global à dupla cidadania, num contexto em que cada vez mais pessoas procuram um segundo passaporte como forma de garantir mobilidade, segurança e um plano alternativo perante um mundo politicamente instável. A tendência intensificou-se nos últimos anos e tem vindo a pressionar governos a reverem regras de acesso à nacionalidade, incluindo o português.
A procura por dupla cidadania, que deixou de ser um fenómeno marginal, está a crescer apesar — e em alguns casos por causa — do endurecimento legislativo em vários países, num movimento analisado num extenso trabalho da CNN Internacional, que traça um retrato detalhado das motivações, benefícios e riscos associados à obtenção de múltiplas nacionalidades.
A possibilidade de circular sem restrições, enfrentar menos burocracia nas fronteiras ou viver e trabalhar noutro país continua a atrair viajantes, expatriados e descendentes de emigrantes. Casos mediáticos como o de George Clooney, que obteve a cidadania francesa para si e para a família no final de 2025, ilustram uma tendência que já não se limita a elites económicas, mas se estende a um público cada vez mais vasto.
Embora não existam números globais exatos, os dados disponíveis indicam um crescimento significativo. No Reino Unido, a percentagem de residentes com múltiplas cidadanias duplicou entre 2011 e 2021, enquanto nos Estados Unidos cerca de 6% dos inquiridos numa sondagem recente afirmaram ter dupla nacionalidade. Especialistas sublinham que os valores reais deverão ser superiores, uma vez que muitos países não exigem a declaração formal de outras cidadanias.
O perfil dos interessados também se alargou. Para além de imigrantes que procuram manter laços com o país de origem, há um aumento claro da procura entre cidadãos de países desenvolvidos. Uma sondagem revelou que um em cada cinco americanos gostaria de emigrar, tendência que se reflete no crescimento acentuado dos pedidos de segundos passaportes, muitas vezes vistos como uma “apólice de seguro” em tempos de instabilidade política e social.
Portugal surge neste contexto como um caso particularmente relevante. O país tentou recentemente aumentar de cinco para dez anos o período de residência exigido para a naturalização, mas a proposta foi travada pelo Tribunal Constitucional por conter normas consideradas inconstitucionais. Em paralelo, foi encerrado o regime especial para descendentes de judeus sefarditas expulsos no século XV, uma via que durante anos atraiu milhares de pedidos de nacionalidade portuguesa.
As principais formas de acesso à cidadania — descendência, naturalização e investimento — continuam disponíveis, mas enfrentam regras cada vez mais exigentes. Em vários países europeus, incluindo Itália, Suécia e Polónia, os requisitos foram agravados em 2025, enquanto os chamados programas de “passaportes dourados” têm sido abolidos ou restringidos, por serem vistos como uma mercantilização da cidadania.
Apesar das vantagens evidentes, a dupla cidadania pode acarretar desvantagens significativas. Obrigações fiscais transnacionais, riscos associados ao serviço militar obrigatório e mudanças legislativas retroativas podem transformar um segundo passaporte num encargo inesperado, sobretudo quando os países de origem ou acolhimento alteram as regras de forma unilateral.
O debate ganhou dimensão política nos Estados Unidos com a proposta de uma Lei da Cidadania Exclusiva, que pretende impedir a dupla nacionalidade. Embora especialistas considerem a iniciativa sobretudo simbólica e constitucionalmente frágil, o impacto mediático é visto como sinal de que a dupla cidadania deixou de ser uma exceção para se tornar um tema central no debate público.
Num cenário de procura crescente e oferta cada vez mais limitada, a sensação de urgência domina quem pondera candidatar-se. A ideia de que a elegibilidade pode desaparecer de um momento para o outro está a acelerar decisões e a alimentar uma corrida global aos passaportes — uma corrida que já está a produzir efeitos concretos em Portugal.













