A segunda volta das eleições presidenciais surge como uma das mais imprevisíveis da história recente da democracia portuguesa, marcada por incerteza quanto à participação eleitoral, ausência de indicações claras de voto por parte de várias figuras políticas e pelo impacto polarizador da candidatura de André Ventura. Tradicionalmente associadas a uma maior abstenção, as segundas voltas poderão, desta vez, fugir ao padrão, com a rejeição ao líder do Chega a funcionar como fator de mobilização eleitoral.
De acordo com a CNN Portugal, politólogos alertam que esta eleição se distingue das anteriores precisamente pela presença de um candidato com elevada taxa de rejeição. Pedro Silveira sublinha que “esta não é uma eleição qualquer”, admitindo que, ao contrário do habitual, a segunda volta pode não traduzir uma quebra significativa da participação, uma vez que o confronto com André Ventura poderá levar muitos eleitores a deslocarem-se às urnas por oposição, mais do que por adesão convicta a um dos candidatos.
A politóloga Paula do Espírito Santo recorda que, em contextos comparáveis como o francês, a segunda volta tem registado níveis mais elevados de abstenção, mesmo em confrontos com candidatos da extrema-direita. Ainda assim, admite que o caso português apresenta especificidades próprias, uma vez que a perceção de risco democrático associada a André Ventura poderá contrariar essa tendência histórica e gerar uma mobilização atípica.
Pedro Silveira destaca que o fenómeno Ventura introduz uma variável disruptiva, afirmando que a sua elevada rejeição pode funcionar como um catalisador de participação. Segundo o politólogo, os apoios que António José Seguro tem vindo a receber ilustram esse mecanismo, tratando-se muitas vezes de declarações de voto “contra André Ventura” e não apenas de apoio direto ao candidato socialista, que venceu a primeira volta com 31% dos votos.
A campanha de António José Seguro tem beneficiado de um alargamento significativo de apoios políticos, incluindo figuras de diferentes quadrantes ideológicos, enquanto André Ventura conta sobretudo com a fidelidade do seu eleitorado. Paula do Espírito Santo sublinha que votos em posições ideológicas mais extremadas tendem a ser mais leais, mas alerta que essa estabilidade poderá não ser suficiente para alcançar a maioria absoluta exigida numa eleição presidencial.
A ausência de indicações de voto por parte de protagonistas como Henrique Gouveia e Melo ou do primeiro-ministro Luís Montenegro contribui para um cenário volátil, podendo gerar dispersão eleitoral ou mesmo abstenção. A politóloga admite ainda que votos em branco ou nulos possam emergir como forma de protesto, embora sublinhe que esse fenómeno não favorece nenhum dos candidatos em disputa.
Independentemente do desfecho, os especialistas concordam que André Ventura já obteve um ganho político relevante ao alcançar a segunda volta. Paula do Espírito Santo considera que esse resultado representa, por si só, uma vitória simbólica para o líder do Chega, reforçando a sua projeção política, enquanto Pedro Silveira antecipa uma campanha fortemente dramatizada, capaz de beneficiar Ventura mesmo em caso de derrota, ao consolidar o seu discurso antissistema.














