Portugal enfrenta risco de cheias históricas nas próximas semanas: as maiores em 25 anos

Em alguns dos cenários mais gravosos, poderão cair mais de 500 litros por metro quadrado até ao início de fevereiro, com chuva distribuída ao longo de vários dias, mas também com picos de intensidade elevada.

Executive Digest
Janeiro 24, 2026
12:11

Portugal Continental atravessa um inverno particularmente chuvoso e com episódios de neve pouco comuns nos últimos anos. Agora, o foco das preocupações passa para o risco crescente de cheias, que poderá atingir níveis não observados há cerca de 25 anos, caso se confirmem as previsões de precipitação para o final de janeiro e o mês de fevereiro, adianta o site especializado Luso Meteo.

A referência aos 25 anos remete para 2001, ano marcado por chuvas persistentes durante vários meses, sobretudo no Norte do país, que provocaram cheias significativas e ficaram associados a acontecimentos trágicos, como a queda da ponte de Entre-os-Rios.

Os anos extremamente chuvosos tendem a surgir de forma cíclica, alternando com períodos mais secos. Normalmente, as albufeiras conseguem absorver a precipitação sem grandes problemas. No entanto, após um ano já chuvoso como foi 2025, um novo período prolongado de chuva torna a situação mais delicada.

Em 2018 registou-se um episódio de precipitação intensa entre o final de fevereiro e abril, mas nessa altura a chuva foi bem-vinda, após a seca severa de 2017. Em 2026, o cenário é diferente: a precipitação começa a ser considerada excessiva, aumentando o risco de cheias em várias bacias hidrográficas.

As sucessivas depressões previstas, por vezes com fluxo de sudoeste e elevado teor de humidade, deverão ser acompanhadas dia a dia. Caberá também às autoridades gerir o armazenamento nas albufeiras para reduzir potenciais impactos.

A este cenário soma-se o degelo de mais de um metro de neve acumulada na Cordilheira Central e nas serras do Norte, um fator que poderá agravar os caudais nas próximas semanas.

Norte e Centro com maior precipitação prevista

As previsões, segundo o mesmo site, apontam para um fluxo dominante de oeste, associado a várias depressões, o que deverá concentrar a precipitação mais intensa nas regiões Norte e Centro no final de janeiro e início de fevereiro.

Nas zonas montanhosas do Norte e Centro, os modelos meteorológicos baseados no ECMWF indicam acumulados que podem atingir entre 600 e 800 litros por metro quadrado até 7 de fevereiro. Em áreas de menor altitude, os valores previstos variam entre 200 e 450 litros por metro quadrado no mesmo período. Já na região Sul, os acumulados deverão situar-se, de forma mais variável, entre 100 e 200 litros por metro quadrado.

Apesar de o modelo europeu tender por vezes a exagerar a precipitação no médio prazo, neste caso existe concordância com outros modelos, como o GFS norte-americano, e também com os ensembles, que consideram diferentes cenários. Isso reforça a probabilidade de um período muito chuvoso.

Em alguns dos cenários mais gravosos, poderão cair mais de 500 litros por metro quadrado até ao início de fevereiro, com chuva distribuída ao longo de vários dias, mas também com picos de intensidade elevada.

Neve continua a acumular e aumenta risco de degelo

Estão ainda previstos novos episódios de queda de neve, incluindo um nevão assinalável a 27 de janeiro, embora menos intenso e a cotas mais elevadas do que o associado à tempestade Ingrid. A neve poderá cair entre os 800 e os 1000 metros de altitude, com possibilidade de novos episódios no final do mês.

Esta acumulação adicional de neve nas serras do Maciço Central, tanto em Portugal como em Espanha, representa um risco acrescido a médio prazo, quando ocorrer o degelo.

Para já, as previsões mais sólidas abrangem o período até ao final de janeiro. Para a primeira semana de fevereiro existe uma tendência para continuação de tempo muito chuvoso, ainda que com maior incerteza.

Segundo dados da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a maioria das albufeiras apresenta níveis de armazenamento acima da média para esta altura do ano, havendo várias barragens próximas das cotas máximas. Por esse motivo, têm sido realizadas descargas preventivas de norte a sul do país.

As bacias hidrográficas do Norte e Centro, como as do Douro, Vouga, Mondego e Tejo, concentram atualmente grandes volumes de água. Com a chuva prevista, estas zonas apresentam risco elevado de cheias nas próximas semanas.

Outro fator crítico é a saturação dos solos, que já têm pouca capacidade de absorver mais precipitação. Assim, a água escoa rapidamente para rios e albufeiras, aumentando o risco de transbordos.

Zonas ribeirinhas e áreas baixas sob maior ameaça

De acordo com o Luso Meteo, as cheias poderão afetar de forma significativa zonas baixas e planícies junto aos rios, nomeadamente nas bacias do Douro, Mondego e Tejo, entre outras áreas que terão de ser avaliadas caso a caso. Há também risco acrescido de derrocadas, que podem comprometer infraestruturas e colocar populações em perigo.

Durante períodos de precipitação mais intensa, existe ainda a possibilidade de inundações rápidas. As autoridades recomendam atenção às indicações da proteção civil e medidas de prevenção adequadas a cada região.

Nas bacias hidrográficas do Sul, o risco é, para já, menos evidente devido à menor precipitação prevista, mas a situação continuará a ser monitorizada.

Apesar do cenário de risco, a atual situação meteorológica indica que o próximo verão não deverá enfrentar falta de água. Ainda assim, esta realidade não altera a tendência de longo prazo em Portugal, onde se prevê maior frequência de secas prolongadas. Os extremos, contudo, tornam-se cada vez mais evidentes, e anos excecionalmente chuvosos como o atual continuam a ocorrer de forma pontual.

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