Mau tempo: crocodilos à solta nas cheias agravam tragédia das inundações em Moçambique

De acordo com a ‘Associated Press’, das 13 mortes oficialmente registadas em Moçambique em resultado das inundações, três foram causadas por ataques de crocodilos

Francisco Laranjeira
Janeiro 23, 2026
17:32

As cheias que continuam a devastar Moçambique estão a empurrar crocodilos para zonas urbanas submersas, provocando pelo menos três mortes e aumentando o clima de medo entre populações já duramente afetadas pela catástrofe. Na cidade de Xai-Xai, capital da província de Gaza, uma das regiões mais atingidas no sul do país, as autoridades alertaram os residentes para o risco crescente de ataques, à medida que as águas avançam e as evacuações para terrenos mais elevados prosseguem.

De acordo com a ‘Associated Press’, das 13 mortes oficialmente registadas em Moçambique em resultado das inundações, três foram causadas por ataques de crocodilos. As chuvas torrenciais e as cheias que atingiram o sul de África no último mês já provocaram mais de uma centena de mortos em Moçambique, África do Sul e Zimbabué, além de terem destruído milhares de habitações e danificado estradas, pontes, escolas e unidades de saúde.

Em Xai-Xai, situada nas margens do rio Limpopo, as autoridades reforçaram os avisos à população para evitar zonas inundadas. “Os níveis dos rios estão a subir e a atingir áreas urbanas ou densamente povoadas”, explicou Paola Emerson, responsável do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários em Moçambique, após uma visita à cidade. Segundo a responsável, os crocodilos conseguem agora alcançar áreas habitadas que ficaram submersas com as cheias, representando um risco sério para os residentes.

O rio Limpopo nasce na África do Sul, atravessa Moçambique e desagua no oceano Índico, ligando extensas zonas fluviais que, em contexto de cheia, facilitam a deslocação dos animais. No início do mês, dois ataques na província de Gaza causaram duas mortes e deixaram três pessoas feridas. Noutra ocorrência, em Moamba, uma pequena cidade da província de Maputo, um homem foi “engolido” por um crocodilo, segundo declarações do secretário provincial Henriques Bongece, citadas pela imprensa local.

As autoridades de Maputo indicaram que os crocodilos poderão ter sido arrastados pelas águas das cheias a partir de um parque situado na vizinha África do Sul. “Queremos alertar toda a população para que não se aproxime de águas paradas, porque há crocodilos à deriva nessas águas. Os rios estão interligados a todas as áreas inundadas”, avisou Bongece.

Para além do perigo imediato representado pela fauna selvagem, as cheias estão a aprofundar uma grave crise humanitária. Semanas de chuva intensa, agravadas pela libertação de água das barragens para evitar falhas estruturais, afetaram mais de 700 mil pessoas em Moçambique, mais de metade das quais crianças, segundo organizações humanitárias como o Programa Alimentar Mundial e o UNICEF.

Esta sexta-feira, a Organização Mundial da Saúde alertou para perturbações graves nos serviços de saúde nas províncias de Gaza e Maputo, depois de pelo menos 44 unidades de saúde terem sido destruídas. Dezenas de milhares de pessoas ficaram sem acesso a cuidados médicos, enquanto mais de 50 mil deslocados, instalados em abrigos temporários, enfrentam serviços de saúde básicos limitados ou inexistentes.

A ONU sublinha que os danos na infraestrutura crítica estão a interromper a prestação de cuidados essenciais, colocando em risco pessoas que dependem de medicação contínua. A organização defende uma resposta urgente para restabelecer serviços de saúde, mobilizar equipas médicas móveis e garantir o acompanhamento de doentes crónicos.

Nos três países afetados, as agências humanitárias alertam ainda para o agravamento da fome e para o aumento do risco de surtos de doenças transmitidas pela água, como a cólera, num contexto em que fenómenos climáticos extremos destruíram colheitas vitais para a subsistência de milhões de pequenos agricultores.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.