Robert F. Kennedy Jr., secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, está a gerar críticas internacionais devido a um estudo proposto com 14.000 recém-nascidos na Guiné-Bissau. A pesquisa pretende testar a vacinação contra a hepatite B, mas especialistas alertam que o projeto repete erros históricos do Estudo de Tuskegee, ocorrido nos EUA entre 1932 e 1972.
No estudo de RFK Jr., metade dos bebés receberia a vacina ao nascer, como recomendado internacionalmente, e a outra metade seis semanas depois. Este atraso pode expor milhares de crianças a riscos desnecessários, numa doença que ataca o fígado e que já tem prevenção comprovada.
O que foi o Estudo de Tuskegee?
O Estudo de Tuskegee começou em 1932 com 600 homens afro-americanos no Alabama, EUA. Destes, 399 tinham sífilis e 201 não. O objetivo alegado era estudar a evolução da doença sem tratamento, mas os participantes nunca foram informados do seu diagnóstico. Foram enganados com promessas de “tratamento gratuito” para sangue considerado “mau”, e receberam placebos em vez de penicilina, que se tornou disponível e eficaz a partir de 1947.
O estudo continuou por 40 anos. Muitos homens ficaram cegos, sofreram falência de órgãos, paralisia e morreram. Filhos e esposas foram infetados, e milhares sofreram consequências evitáveis. Só em 1972, quando a investigação foi denunciada à imprensa, a experiência terminou.
Em 1997, o presidente Bill Clinton pediu desculpas oficialmente: “O que foi feito não pode ser desfeito. Mas podemos quebrar o silêncio… O governo dos Estados Unidos fez algo vergonhoso, e eu sinto muito.”
O Estudo de Tuskegee é hoje símbolo de violação ética e abuso científico.
Paralelo com o estudo atual
O estudo de RFK Jr. apresenta semelhanças preocupantes. Especialistas sublinham que adiar a vacinação de metade dos recém-nascidos cria riscos desnecessários em crianças saudáveis.
“RFK Jr. está prestes a conduzir o seu próprio Estudo de Tuskegee”, alerta Paul Offit, pediatra especializado em doenças infecciosas e vacinas, no seu artigo no ‘Substack’. “Crianças que receberem a vacina tardiamente têm 90% de chance de sofrer complicações graves no fígado mais tarde.”
A vacinação contra a hepatite B é recomendada pela ONU desde 2009 e foi implementada nos EUA em 1991, reduzindo drasticamente os casos da doença. A Guiné-Bissau planeia aplicar a vacina a todos os bebés a partir de 2027. O estudo de RFK Jr. atrasaria esta imunização, colocando milhares de recém-nascidos em risco desnecessário.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, em países com programas eficazes de vacinação, a infeção crónica em crianças caiu de 8–15% para menos de 1%.
“RFK Jr. vê este atraso como uma ‘janela de oportunidade’ para testar sua teoria de efeitos neurológicos da vacina, embora mais de 30 anos de experiência nos EUA já tenham mostrado que essas alegações são falsas”, acrescenta Offit.
Especialistas alertam para riscos éticos e médicos
Profissionais de saúde destacam que o estudo coloca em questão princípios éticos fundamentais, expondo crianças a risco evitável.
“Não se trata apenas de ciência, é uma questão de proteger vidas inocentes. Repetir um erro histórico desta magnitude é inaceitável”, afirma a médica internacional Rita Nascimento, especialista em imunologia pediátrica.
O paralelo com Tuskegee serve como alerta: história médica não pode ser ignorada. Estudos sobre vacinas devem proteger, e não colocar em risco, crianças já vulneráveis.
O plano de RFK Jr. acendeu um debate global sobre ética, ciência e proteção infantil. Especialistas reforçam que a vacina deve ser administrada no momento certo, seguindo recomendações internacionais, e que qualquer atraso deliberado é potencialmente perigoso e injustificável.














