Na campanha presidencial de André Ventura, ouviram-se lamentos de vários apoiantes, que se sentem esquecidos e recusam ser apelidados de “tontos da cabecinha”, queixando-se do acesso à saúde, reformas baixas e rendas altas.
No frio de Vila Real, a 12 de janeiro, Teresa, assistente administrativa, segurava juntamente com outro apoiante uma faixa onde se lia: “Desde Faro até Bragança, são 50 anos de corrupção. Estamos fartos disto! Por isso, tem que haver mudança”.
Interpelada pela agência Lusa, a apoiante queixou-se do esquecimento a que é condenado este “cantinho de Portugal”, afirmando que “as pessoas em Lisboa não sabem o que é o interior”.
“Temos que vir a Vila Real para conseguirmos ir a consultas no hospital”, lamentou a residente de Chaves, que tem de fazer 70 quilómetros para chegar àquela capital de distrito.
Ao seu lado, Adília, era assistente operacional numa escola no centro da Amadora, em Lisboa, mas decidiu regressar ao interior, residindo em Boticas.
Adília já votou à esquerda e virou “completamente ao contrário”. Com uma carreira de 40 anos na função pública, disse receber apenas 400 euros de reforma por ter uma doença degenerativa.
“Rotulam as pessoas que são do Chega com determinados rótulos mas não. Somos pessoas muito bem-educadas, muito bem formadas, sabemos muito bem o que queremos. Não somos nenhuns tontos da cabecinha como às vezes nos dizem, que não temos formação, temos sim”, criticou.
Na mesma roda de apoiantes estava ainda José Pereira, emigrante na Suíça, que disse já ter votado nos “xuxulistas” — numa referência ao Partido Socialista — mas acusou a esquerda de “só querer pobreza”.
José emocionou-se ao lembrar que emigrou deixando o pai doente em Portugal, que acabou por morrer, mas recusou comparações entre os emigrantes portugueses e os imigrantes no país.
Em vários dos casos ouvidos pela Lusa, a raiva, além de dirigida para a classe política, tinha também como alvo os imigrantes e a comunidade cigana, repetindo o discurso do Chega, alegando que estes cidadãos têm acesso a tudo — apoios, casa e trabalhos bem pagos -, ao contrário da restante população.
Ao longo da campanha eleitoral, André Ventura foi ouvindo vários lamentos, que ia “guardando” e por vezes utilizando nos seus discursos. Muitos focaram-se no acesso à saúde, como Manuela, que, na Guarda, interpelou Ventura numa arruada.
À Lusa, lamentou que o hospital da Mêda “esteja todos os dias fechado” por falta de médicos, tendo que ir até à Guarda, a 60 quilómetros.
Logo no arranque da campanha, numa outra arruada em Silves, distrito de Faro, Ventura ouviu os lamentos de Tânia Romão, com um filho com 15 anos que tem uma condição de saúde complexa – osteomelite crónica – e espera há um mais de um ano por uma ressonância magnética no Hospital Santa Maria.
“São estes ministros que a gente tem na saúde. […] É uma vergonha e eu tenho que estar sempre a pagar tudo”, protestou.
Funcionária de uma autarquia do Algarve a receber o ordenado mínimo, a mulher de 42 anos disse que terá “de pagar 800 euros” para resolver a situação.
Também em Pinhal Novo (Setúbal), outra mãe aproveitou a presença de André Ventura para expor a sua situação: é doente oncológica, recebe 380 euros por estar de baixa médica e paga 350 euros de renda.
Cláudia Neves, de 47 anos, é também diabética e hipertensa, e lamentou ao candidato não receber o vencimento a 100%.
À Lusa, disse que vive sozinha com o seu filho de 17 anos, considerando que André Ventura “é a solução” por sentir que o sistema não lhe dá resposta.
Em Ourém, Maria Lima levantou a voz para corporizar a sua revolta: “Correram comigo porque queriam que eu pagasse mais renda. Tudo ilegal, paguei renda, água e luz em nome de senhorio. E tive de fugir do senhorio”.
A mulher, de 59 anos, disse ter vivido 12 numa casa em Camarate, mas teve de deixar a sua vida e ir morar para Ourém, por ter sido onde arranjou habitação mais barata.
“Vamos vivendo, ganhando do campo, com galinhas e ovelhas”, disse a mulher que vive com o marido reformado.
Apesar de achar que Ventura poderá resolver os problemas que sente no dia-a-dia, Maria Lima entende que o também líder do Chega não os irá resolver como Presidente da República.
“Devia ir para primeiro-ministro. Coitado, pronto, mas ele vai chegar lá, vai ficar para depois. Podem aguardar, que ele vai mudar isto. Vai devagarinho, mas vai”, afiançou.














