Dois milhões procurados e 200 mil desertores: a bombarrelógio da mobilização na Ucrânia

Mykhailo Fedorov torna-se o ministro da Defesa mais jovem da história da Ucrânia e tem problemas prementes em mãos para resolver

Francisco Laranjeira
Janeiro 14, 2026
15:21

A Ucrânia enfrenta uma crise profunda no sistema de mobilização militar, com cerca de dois milhões de cidadãos atualmente procurados por alegada evasão ao recrutamento e 200 mil militares dados como ausentes sem licença oficial, revelou o recém-nomeado ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, num discurso no Parlamento antes da votação da sua nomeação.

“Não quero ser populista, quero ser realista”, afirmou Fedorov perante a Verkhovna Rada, sublinhando que recebe um Ministério da Defesa marcado por um défice orçamental elevado, um número sem precedentes de cidadãos procurados por recusarem servir nas Forças Armadas e dezenas de milhares de casos de deserção. De acordo com o ‘Kyiv Post’, estas declarações expõem a dimensão dos desafios estruturais que o novo ministro herda num momento crítico da guerra.

Quase 290 mil processos por abandono desde 2022

Os números oficiais confirmam a dimensão do problema. Segundo dados da Procuradoria-Geral citados pela imprensa ucraniana, foram instaurados quase 290 mil processos criminais por abandono não autorizado de unidades militares entre janeiro de 2022 e setembro de 2025. Deste total, 235.646 processos dizem respeito a ausência injustificada, enquanto 53.954 foram abertos por deserção.

Apesar da gravidade da situação, um mecanismo simplificado criado para permitir o regresso ao serviço de militares que abandonaram as suas unidades pela primeira vez permitiu a reintegração de mais de 29 mil soldados entre novembro de 2024 e agosto de 2025, segundo o Departamento Estatal de Investigação.

Auditoria ao recrutamento e às finanças da Defesa

Antes mesmo de assumir funções, Fedorov comprometeu-se a realizar uma auditoria completa aos centros territoriais de recrutamento, defendendo uma reforma profunda e rápida do sistema de treino e mobilização. O novo ministro anunciou igualmente uma auditoria financeira abrangente ao Ministério da Defesa, justificando a medida com um défice de cerca de 300 mil milhões de hryvnias (cerca de 6,5 milhões de euros) face ao ano anterior.

Segundo o ‘Kyiv Post’, Fedorov afirmou que a revisão financeira e administrativa será a sua prioridade imediata, com o objetivo de identificar falhas estruturais, melhorar a gestão de recursos e reforçar o apoio social aos militares, sem comprometer a capacidade defensiva do país.

Tensões crescentes em torno da mobilização

As declarações do novo ministro surgem num contexto de crescente tensão social em torno do recrutamento. Recentemente, um veículo envolvido em operações ligadas à mobilização foi alvo de disparos na região de Lviv, num incidente que está a ser investigado pelas autoridades ucranianas e que reflete o clima de desgaste associado à prolongada mobilização para o esforço de guerra.

O ministro da Defesa mais jovem da história da Ucrânia

Aos 35 anos, Mykhailo Fedorov torna-se o ministro da Defesa mais jovem da história da Ucrânia. Antigo ministro da Transformação Digital e vice-primeiro-ministro, destacou-se pela digitalização em larga escala da administração pública e, desde o início da invasão russa em grande escala, pelo envolvimento direto no desenvolvimento tecnológico e na aquisição de drones para o esforço militar.

Fedorov substitui Denys Shmyhal, que ocupou o cargo durante apenas seis meses, numa remodelação governamental que o Presidente Volodymyr Zelensky justificou com a necessidade de “mudar o formato” do Ministério da Defesa.

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