Aplicação chinesa “Já estás morto?” torna-se fenómeno num país com cada vez mais pessoas a viver sozinhas

Uma aplicação com um nome provocador — “Já estás morto?” — tornou-se o download pago mais popular da App Store na China, refletindo preocupações crescentes numa sociedade marcada por profundas mudanças demográficas.

Pedro Gonçalves
Janeiro 12, 2026
14:19

Uma aplicação com um nome provocador — “Já estás morto?” — tornou-se o download pago mais popular da App Store na China, refletindo preocupações crescentes numa sociedade marcada por profundas mudanças demográficas. A popularidade da aplicação, conhecida em chinês como Sile Me, surge num contexto em que cada vez mais jovens optam por viver sozinhos e um número crescente de idosos permanece isolado, muitas vezes sem familiares próximos.

A aplicação funciona de forma simples: os utilizadores têm de confirmar diariamente que estão bem, carregando num botão de “check-in”. Caso falhem essa confirmação durante dois dias consecutivos, o sistema envia automaticamente uma mensagem a um contacto de emergência previamente indicado pelo próprio utilizador.

O sucesso viral da aplicação coincide com uma transformação acelerada da estrutura social chinesa. Um número crescente de jovens adultos escolhe viver sozinho, adiando o casamento ou optando por não constituir família. Em paralelo, muitos idosos permanecem isolados nas suas casas, sobretudo em zonas rurais, após a migração de familiares em idade activa para os grandes centros urbanos.

Wei-Jun Jean Yeung, especialista em demografia social na Universidade Nacional de Singapura, sublinha que existe uma necessidade real de ferramentas digitais destinadas a pessoas que vivem sozinhas. “À medida que a fecundidade diminui, a esperança média de vida aumenta, os casamentos caem e as taxas de divórcio continuam a subir, tudo isto contribui para o crescimento dos agregados unipessoais”, explicou. “A preocupação é real.”

A China registou em 2024 o terceiro ano consecutivo de diminuição da população, depois de em 2023 ter perdido o estatuto de país mais populoso do mundo para a Índia.

Aumento significativo dos lares unipessoais
Os dados oficiais confirmam a tendência. Segundo o Gabinete Nacional de Estatísticas da China, os agregados familiares compostos por uma única pessoa representavam 19,5% do total em 2024, um aumento significativo face aos 7,8% registados há duas décadas.

Este crescimento resulta de múltiplos factores: envelhecimento da população, menor número de filhos, adiamento do casamento e uma maior aceitação social da vida a solo, especialmente entre as gerações mais jovens nas grandes cidades.

Público-alvo são jovens urbanos, sobretudo mulheres
Um dos três jovens cocriadores da aplicação, que se identificou apenas como Lyu, explicou à imprensa local que o público-alvo inicial eram jovens a viver sozinhos nas maiores cidades chinesas, com particular incidência em mulheres em torno dos 25 anos.

Segundo Lyu, este grupo tende a “sentir uma forte solidão devido à falta de pessoas com quem comunicar”, situação frequentemente acompanhada por “preocupações com a possibilidade de ocorrerem imprevistos sem que ninguém se aperceba”.

Ainda assim, muitos comentadores consideram que a aplicação poderá revelar-se ainda mais relevante para a população idosa, embora reconheçam que pessoas muito idosas em zonas rurais remotas possam enfrentar dificuldades na utilização da tecnologia.

Aplicações deste tipo serão cada vez mais necessárias
Wei-Jun Jean Yeung considera que aplicações como a Sile Me, bem como outros sistemas de monitorização doméstica — como sensores em frigoríficos ou televisores que detectam ausência de utilização prolongada e alertam familiares — ganharão importância à medida que a população chinesa envelhece.

“Viver sozinho não significa necessariamente estar sozinho, mas existe claramente o risco de isolamento social”, afirmou. Para a especialista, torna-se essencial “incentivar as pessoas a manter ligações e a participar activamente na comunidade”.

Nome polémico gera debate público
Apesar de amplamente elogiada, a aplicação tem sido alvo de debate devido à escolha do nome. Vários comentadores questionaram o impacto psicológico da palavra “morto” na designação chinesa, sobretudo entre utilizadores idosos. Na loja internacional da Apple, a aplicação surge com o nome alternativo Demumu.

Hu Xijin, colunista nacionalista chinês, sugeriu uma alteração: “Recomendo que o nome seja mudado para ‘Estás vivo?’, pois isso proporcionaria maior conforto psicológico aos idosos que a utilizam”.

Lyu rejeita a ideia de que o nome tenha uma conotação negativa. “Não foi pensado para ser algo mau”, afirmou, acrescentando que a designação pretende funcionar como “um lembrete para valorizarmos o presente”.

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