Explicador. Europa ‘encurralada’ na Gronelândia: que opções têm a UE e NATO para contrariar vontade de Trump?

Washington tem justificado a sua posição com argumentos de segurança nacional, chegando a admitir que poderá agir sobre o território “quer eles gostem ou não”

Francisco Laranjeira
Janeiro 12, 2026
12:05

As reiteradas declarações da Administração Donald Trump sobre a necessidade de os EUA assumirem o controlo da Gronelândia estão a colocar a União Europeia e a NATO perante um dilema estratégico sem solução evidente. Washington tem justificado a sua posição com argumentos de segurança nacional, chegando a admitir que poderá agir sobre o território “quer eles gostem ou não”.

A Gronelândia, indicou o jornal britânico ‘The Guardian’, é uma região autónoma da Dinamarca e não integra a União Europeia, mas está abrangida pelas garantias de defesa da NATO através da participação dinamarquesa. Este enquadramento jurídico e político deixa Bruxelas e a aliança atlântica numa posição delicada: defender a soberania dinamarquesa e gronelandesa sem escalar um conflito com o principal aliado transatlântico.

Apesar das declarações firmes de líderes europeus em defesa da integridade territorial da Dinamarca e do direito da Gronelândia a decidir o seu futuro, não existe ainda uma estratégia consensual para dissuadir Trump ou responder a uma eventual ação concreta dos Estados Unidos. Então, que soluções tem a UE para contrariar a Casa Branca?

Diplomacia e reforço da segurança no Ártico

A via diplomática surge como a primeira linha de resposta. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, deverá reunir-se com os ministros dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca e da Gronelândia, enquanto representantes diplomáticos de ambos os territórios já intensificaram contactos junto das autoridades americanas.

Um dos principais argumentos apresentados passa por recordar que o tratado de defesa entre os EUA e a Dinamarca, em vigor desde 1951 e atualizado em 2004, já permite uma expansão significativa da presença militar americana na ilha, incluindo a instalação de novas bases. Ao mesmo tempo, responsáveis dinamarqueses sublinham que um ataque dos EUA à Gronelândia equivaleria, na prática, a um membro da NATO virar-se contra outro, cenário que, segundo a primeira-ministra Mette Frederiksen, significaria “o fim da NATO”.

Em paralelo, diplomatas da aliança atlântica acordaram recentemente em reforçar a presença militar no Ártico, com mais meios, equipamentos e exercícios, numa tentativa de responder às preocupações de segurança dos Estados Unidos. Embora as afirmações de Trump sobre uma presença massiva de navios chineses e russos na região sejam vistas como exageradas, acredita-se que uma iniciativa coordenada para reforçar a segurança externa da Gronelândia possa ser a solução menos conflituosa.

Sanções económicas: poder teórico, vontade limitada

Em teoria, a União Europeia dispõe de instrumentos económicos significativos para pressionar Washington, desde medidas comerciais até limitações ao acesso de empresas e investimentos americanos ao mercado europeu. O instrumento anticoerção da UE, frequentemente descrito como a “bazuca comercial”, permitiria aplicar tarifas, restringir bens e serviços ou mesmo revogar direitos de propriedade intelectual.

Na prática, porém, a aplicação destas medidas exigiria consenso entre os Estados-membros, algo considerado improvável devido ao receio de impactos económicos negativos e à necessidade de manter os EUA alinhados em dossiês como a guerra na Ucrânia. Além disso, a dependência europeia de tecnologia americana, incluindo em áreas sensíveis como Defesa, limita a credibilidade de qualquer ameaça de sanções, como sublinha o ‘The Guardian’.

Investimento europeu para afastar influência americana

Outra opção em análise passa por reforçar o investimento europeu na Gronelândia. A economia do território depende fortemente de transferências anuais da Dinamarca, que rondaram os 530 milhões de euros no último ano, cobrindo cerca de metade da despesa pública e representando aproximadamente 20% do PIB local.

Perante promessas de Trump de investir “milhares de milhões”, a Comissão Europeia admite duplicar os compromissos financeiros com a Gronelândia, igualando o apoio dinamarquês e permitindo ainda o acesso a fundos europeus destinados a territórios remotos associados. A estratégia visa reduzir a atratividade económica das propostas americanas, sobretudo num contexto em que a Gronelândia poderá, no futuro, optar pela independência.

A opção militar como último recurso

Alguns analistas defendem uma resposta mais assertiva. Num artigo publicado por especialistas ligados ao think tank ‘Bruegel’, é sugerido que a União Europeia deverá proteger proativamente a Gronelândia do expansionismo americano, incluindo a possibilidade de destacar tropas europeias como sinal de compromisso com a integridade territorial da ilha.

Embora tal medida não impedisse uma eventual anexação, tornaria o processo politicamente e militarmente mais complexo, com custos elevados para a credibilidade internacional dos EUA. Alemanha e França já admitiram publicamente que estão a ponderar cenários de dissuasão europeia, incluindo o envio de contingentes militares.

A UE dispõe de uma capacidade de mobilização rápida que permite destacar até 5.000 soldados em missões de resposta a crises fora do bloco. Especialistas acreditam que essa possibilidade poderá influenciar os cálculos de Washington, num contexto em que uma confrontação direta entre os EUA e a UE é vista como indesejável e altamente destabilizadora para a cooperação em Defesa, os mercados e a confiança global.

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