Em Melgaço, concelho raiano com a Galiza e com cerca de 7.500 habitantes, metade dos quais com mais de 65 anos, o acesso a cuidados de emergência pode significar mais de uma hora de viagem. As urgências polivalentes ou médico-cirúrgicas mais próximas ficam em Viana do Castelo, a cerca de 100 quilómetros do centro da vila, num percurso que ultrapassa facilmente os 60 minutos. Considerando as várias freguesias do concelho, o tempo médio até às urgências sobe para 1h20, um dos piores registos do país. “O tempo é a diferença entre a vida e o fim dela”, resume o presidente da câmara, José Albano Domingues, citado pelo jornal ‘Expresso’.
O caso de Melgaço ilustra uma realidade mais vasta. No continente, cerca de 132 mil pessoas vivem em concelhos que estão, em média, a mais de uma hora de carro de uma urgência polivalente ou médico-cirúrgica, ultrapassando o limite máximo de 60 minutos definido na reorganização da rede de urgências de 2014. Embora representem apenas 1,3% da população, estes números expõem desigualdades territoriais persistentes no acesso ao socorro em situações críticas.
Milhares vivem além do tempo considerado seguro
Outros critérios analisados apontam para um problema mais alargado. Cerca de 470 mil pessoas residem a mais de 45 minutos de uma urgência hospitalar, enquanto quase 1,6 milhões de portugueses vivem a 30 minutos ou mais destes serviços. Em contraste, apenas 44% da população está a menos de 15 minutos de uma urgência. Na comparação europeia, Portugal fica longe dos países com melhor cobertura, com o Eurostat a sublinhar as desigualdades entre litoral e interior.
A análise, desenvolvida numa parceria entre o Expresso e o NOVA Cidade — Urban Analytics Lab da NOVA IMS, cruzou a localização das urgências polivalentes, médico-cirúrgicas e obstétricas com os tempos médios de deslocação desde o centro das freguesias. O retrato final mostra um país a duas velocidades: litoral e centros urbanos com acessos mais rápidos, interior e Alentejo marcados por distâncias longas e tempos críticos.
Quando cada minuto conta
Em situações como AVC, enfarte, trauma grave ou paragem respiratória, o risco de morte aumenta a cada minuto. Nestes casos, mais do que a distância ao hospital, é decisivo o tempo de chegada dos meios de socorro. No entanto, não existem dados públicos detalhados do INEM por concelho. As estatísticas mais recentes indicam respostas superiores a 30 minutos em 12% das ocorrências em áreas rurais e tempos acima de 15 minutos em quase um terço dos pedidos em zonas urbanas.
Para a geógrafa da saúde Ana Isabel Ribeiro, investigadora da Universidade do Porto, a ausência de dados públicos dificulta a avaliação da eficácia do socorro nos territórios mais afastados. Estudos internacionais apontam para 30 minutos como um limiar crítico, a partir do qual estas áreas podem ser consideradas “desertos médicos”, com acesso limitado a cuidados de saúde essenciais.
Hospitais concentrados e estradas insuficientes
O encerramento de serviços e a concentração hospitalar nos grandes centros agravaram as distâncias em várias regiões do interior. Em Trás-os-Montes, o fecho da urgência cirúrgica do Hospital de Mirandela aumentou ainda mais os tempos de deslocação. As autarquias alertam para a dificuldade em atrair médicos e para a importância de uma rede viária eficaz, sublinhando o papel essencial dos bombeiros no socorro de emergência.
A investigadora defende que a reorganização da rede hospitalar deve integrar critérios de acessibilidade geográfica, mesmo que isso implique compromissos na eficiência económica. Sem uma resposta estrutural ao abandono do interior, alerta, a melhoria do acesso à saúde continuará limitada.
Maternidades ainda mais distantes
No caso das urgências de obstetrícia, o cenário é ainda mais exigente. Quase um quinto da população vive a 30 minutos ou mais da maternidade mais próxima e cerca de 2% tem de percorrer mais de uma hora. Apesar de a cobertura ser considerada razoável no contexto europeu, especialistas defendem soluções como o apoio estatal à deslocação e alojamento de grávidas que vivem longe dos hospitais, à semelhança do que acontece nos países nórdicos.
Em Melgaço, a falta de médicos de família agrava o isolamento: existem apenas cinco clínicos para um quadro previsto de sete e as esperas por consulta podem chegar a vários meses. Para o autarca, a cooperação com Espanha pode ser uma solução. O problema, conclui Ana Isabel Ribeiro, é sistémico e transversal a vários serviços públicos. Sem combater o abandono estrutural de partes do território, o acesso rápido ao socorro continuará fora do alcance de muitos portugueses.













