Do Caribe ao Báltico: a frota fantasma que ameaça a segurança da Europa

Rápida deposição de Nicolás Maduro na Venezuela pelos EUA está a provocar efeitos imediatos no delicado equilíbrio geopolítico e no mercado global de energia

Francisco Laranjeira

A rápida deposição de Nicolás Maduro na Venezuela pelos EUA está a provocar efeitos imediatos no delicado equilíbrio geopolítico e no mercado global de energia. Entre as consequências mais relevantes está a entrada direta de Washington nas operações petrolíferas do país caribenho, uma mudança que ameaça desmantelar a chamada “frota fantasma” usada para transportar crude entre países sob sanções ocidentais.

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Segundo o ‘El Economista’, esta pressão sobre as operações clandestinas no Caribe poderá ter um efeito colateral significativo para a Europa, com o possível desvio destes navios para águas europeias, em particular para o Mar Báltico, aumentando os riscos ambientais e de segurança no continente.

Há vários anos que países não alinhados com os EUA e os seus aliados recorrem a petroleiros “fantasma” para contornar sanções internacionais. Estas embarcações operam sem seguros ocidentais, desligam frequentemente os sistemas de navegação para evitar a deteção por radar, usam bandeiras falsas e escondem a propriedade real através de estruturas empresariais opacas. Muitas são navios antigos, com mais de 20 anos, que já deveriam ter sido abatidos e que representam riscos acrescidos, sobretudo devido às transferências clandestinas de combustível em alto-mar.

No chamado eixo de países hostis a Washington, China, Irão e, mais recentemente, a Rússia têm recorrido a este tipo de frota. A Venezuela chavista integrou também este circuito, exportando crude para a China através da Malásia, que funcionava como intermediário, recebendo pagamentos em yuan ou criptomoedas, fora do sistema tradicional do petrodólar. Paralelamente, Caracas recebia combustível russo, como nafta, essencial para diluir o petróleo pesado da Faixa do Orinoco e viabilizar a sua exportação.

Com a presença militar americana junto à costa venezuelana, estas operações estão agora sob forte vigilância. De acordo com o ‘El Economista’, desde a chegada das forças dos EUA à região, vários petroleiros da frota paralela inverteram rota e abandonaram a área, após a apreensão de diversas embarcações. O caso mais emblemático foi o do petroleiro ‘Bella 1’, também conhecido como ‘Marinera’, que esteve semanas à deriva antes de ser capturado pelas forças americanas.

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Alerta para a Europa e pressão sobre o Mar Báltico

Longe de ser um episódio isolado, a captura do ‘Bella 1’ é vista como um sinal de alerta para a Europa. Analistas admitem que a frota fantasma poderá abandonar o Caribe e regressar ao Mar Báltico, atualmente um dos principais corredores de exportação de petróleo russo.

Robin Brooks, investigador sénior da Brookings Institution, já tinha alertado para a forte sobreposição entre os navios da frota fantasma que operam a partir da Venezuela e os que atuam no Báltico. Na sua análise, uma intervenção bem-sucedida dos EUA em território venezuelano poderá empurrar estes navios de volta para águas europeias, aumentando a pressão sobre a União Europeia e o Reino Unido para conter este tráfego.

O risco não é apenas teórico. Nos últimos anos, vários países europeus relataram dificuldades no controlo destes navios. A Dinamarca enfrentou problemas na fiscalização do tráfego através dos seus estreitos, com receios de danos ambientais, enquanto a Alemanha lidou com um petroleiro avariado da frota fantasma ancorado ao largo da sua costa. Persistem ainda preocupações relacionadas com a utilização destes navios como possíveis plataformas para operações com drones.

Reino Unido abre precedente com apoio aos EUA

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A cooperação entre o Reino Unido e os EUA na captura do ‘Bella 1’ marcou um precedente relevante. O secretário da Defesa britânico, John Healey, confirmou o apoio de Londres à operação, sublinhando que o objetivo era reforçar as sanções contra o Irão e combater a ameaça à segurança global representada pelas atividades marítimas clandestinas.

O Reino Unido forneceu apoio operacional e vigilância aérea, incluindo o destacamento de uma aeronave P-8 Poseidon da Força Aérea Real a partir da base de Lossiemouth, no norte da Escócia. Londres tem também intensificado as sanções contra estas embarcações ao longo do último ano, num esforço para travar a proliferação da frota paralela.

Da frota fantasma à frota Chevron

Enquanto a frota clandestina recua, uma nova realidade começa a desenhar-se no Caribe. Com a queda de Maduro, a Chevron surge como a principal beneficiária da reconfiguração do setor petrolífero venezuelano, tornando-se a única empresa ocidental autorizada a produzir e exportar crude do país ao abrigo de uma licença do Departamento do Tesouro dos EUA.

A Chevron prepara-se para exportar em janeiro mais petróleo venezuelano do que em qualquer mês do ano anterior, com pelo menos 11 navios-tanque programados para atracar nos portos de José e Bajo Grande. Este volume corresponde a cerca de 152 mil barris por dia, acima dos aproximadamente 123 mil barris diários carregados em dezembro.

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A empresa, responsável por cerca de um quarto da produção venezuelana, supervisiona todo o processo, desde a extração até à entrega às refinarias no Golfo do México e na Costa Leste dos Estados Unidos. Apesar do aumento da produção, a presença militar norte-americana impediu pelo menos uma dezena de navios de atracar na Venezuela, e outros petroleiros da frota fantasma continuam a ser apreendidos.

Impacto incerto num mercado ainda instável

O reforço da produção por parte da Chevron está a aliviar o excesso de oferta interna na Venezuela, causado pelos atrasos nas exportações devido ao bloqueio naval. Ainda assim, se a produção não aumentar de forma sustentada, a estatal PDVSA poderá ser forçada a encerrar poços, com previsões de queda da produção para cerca de 600 mil barris por dia no curto prazo.

Embora a administração americana acredite que grandes investimentos poderão revitalizar o setor petrolífero venezuelano, os produtores internacionais mantêm-se cautelosos após anos de corrupção e degradação das infraestruturas. Num mercado global já pressionado por sanções, conflitos e instabilidade geopolítica, a deslocação da frota fantasma para águas europeias surge como um novo desafio para a União Europeia.

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