Cláudio Valente, o cidadão português responsável por um tiroteio na Universidade Brown, nos Estados Unidos, e pelo homicídio do físico português Nuno Loureiro, deixou quatro vídeos nos quais confessou os crimes e afirmou não sentir qualquer arrependimento. As gravações, feitas momentos antes de se suicidar, foram encontradas pelas autoridades num aparelho localizado junto ao corpo do próprio agressor.
As transcrições dos vídeos foram divulgadas esta terça-feira pelo Ministério Público Federal do Distrito de Massachusetts. Nelas, Cláudio Valente admite que planeou os ataques ao longo de três anos e descreve, com detalhe, o que fez e como se sentia nas horas finais antes de pôr termo à vida.
Segundo as declarações registadas em vídeo, o português assumiu ter preparado os crimes durante um longo período, embora tenha classificado a execução como “um pouco incompetente”. Ainda assim, garantiu que o essencial era agir “mais ou menos” nos seus “próprios termos” e evitar ser ele a “sofrer com tudo o que aconteceu”.
No primeiro vídeo, Cláudio Valente foi explícito quanto à ausência de remorsos. “Não diria que estou extremamente satisfeito, mas também não me arrependo do que fiz”, afirmou, acrescentando: “Não vou pedir desculpas, porque durante a minha vida ninguém me pediu desculpas”.
O agressor reconheceu que lhe foi “muito difícil” avançar com os crimes, referindo uma forte “inércia”, mas sublinhou que não se importava com a forma como seria julgado publicamente nem com o que viesse a ser dito sobre si.
Nos vídeos, Cláudio Valente comentou ainda declarações feitas sobre ele pelo então presidente norte-americano, Donald Trump, que o teria apelidado de “animal”. Longe de se ofender, o português disse concordar com a caracterização. “Eu sou um animal e ele também”, afirmou.
Apesar dos ataques cometidos em solo norte-americano, garantiu não sentir qualquer ódio em relação aos Estados Unidos, nem em relação a quem quer que fosse. Segundo explicou, tudo o que aconteceu resultou de “uma questão de oportunidade”, afastando motivações ideológicas ou políticas.
Cláudio Valente revelou que não tencionava inicialmente deslocar-se para o armazém em Salem, no estado de New Hampshire, onde viria a ser encontrado morto. Explicou que escolheu aquele local por ser isolado e por acreditar que conseguiria permanecer ali “algumas horas sem ser encontrado”.
Nos momentos finais do primeiro vídeo, demonstrou incerteza quanto à decisão de se matar. “Vamos ver se tenho coragem de fazer isto a mim mesmo agora, porque foi muito difícil fazer isto a todas estas pessoas”, disse, acrescentando que invejava aqueles que, “por natureza ou não”, não têm dificuldade em cometer atos dessa natureza.
Apesar da gravidade dos crimes, Cláudio Valente insistiu que não sofria de qualquer perturbação mental. Antecipando que seria rotulado como “mentalmente doente”, rejeitou essa interpretação, classificando-a como “disparate” e “desculpas esfarrapadas”.
O português descreveu ainda o conflito interno vivido momentos antes do suicídio, afirmando que “preferiria fazer qualquer outra coisa” por considerar o ato “difícil”. Chegou mesmo a dizer que não sabia se deveria usar “uma arma” ou “ambas”, numa referência às opções que ponderava.
Num dos vídeos, Cláudio Valente reconheceu que o ataque na Universidade Brown não decorreu como tinha planeado. “Correu tudo mal”, afirmou, explicando que pretendia realizar o tiroteio numa “sala normal” e não num auditório.
Segundo relatou, quando entrou no auditório viu apenas “um rapaz lá em baixo” e pensou que os restantes estudantes tinham fugido pela saída de emergência. Disse não ter percebido que vários alunos se encontravam escondidos debaixo das mesas, acreditando que o espaço estivesse vazio.
O agressor descreveu também um momento em que esteve perto de ser identificado. “Fui confrontado por um tipo lá naquele dia… e ele sabia a minha matrícula”, revelou, admitindo surpresa por as autoridades terem demorado tanto tempo a localizá-lo após os crimes.
Cláudio Valente matou dois estudantes e feriu outros nove no tiroteio ocorrido na Universidade Brown, a 13 de dezembro de 2025. Dois dias depois, a 15 de dezembro, matou a tiro o físico português Nuno Loureiro, à porta da casa da vítima, em Brookline, no estado de Massachusetts.
O corpo de Cláudio Valente foi encontrado a 18 de dezembro num armazém em Salem, New Hampshire. As autoridades continuam a investigar as motivações dos crimes, uma vez que o próprio não explicou, nos vídeos deixados, as razões que o levaram a agir.













