A contestação dos agricultores franceses volta a ganhar força esta quinta-feira, com uma grande manifestação em Paris convocada pela Coordenação Rural. A mobilização acontece no próprio dia em que o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, conclui uma ronda de reuniões com os principais sindicatos agrícolas, numa tentativa de desanuviar um conflito que se arrasta desde o final do ano passado.
De acordo com a France Info, a Coordenação Rural prepara uma marcha de tratores em direção à capital, com vários comboios já em circulação a partir de diferentes regiões do país. O presidente do sindicato, Bertrand Venteau, confirmou que tratores atravessaram o rio Loire e que a maioria das colunas deverá partir ao longo do dia, numa operação que se quer “pacífica”, mas com forte impacto simbólico.
Após uma breve pausa durante o período de Natal, os agricultores retomaram as ações de protesto em quase todo o território francês no início da semana. No centro das reivindicações continuam a estar os abatimentos em massa de bovinos para conter a dermatose nodular contagiosa e a oposição ao acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul, cuja assinatura poderá avançar já a 12 de janeiro.
Embora o Governo tenha multiplicado os contactos com os sindicatos, a insatisfação permanece elevada. A Coordenação Rural não pediu qualquer trégua formal e mantém a aposta na mobilização nacional, considerando que a resposta do executivo continua insuficiente.
Paris como ponto de convergência
Ainda não é conhecido o percurso exato nem a dimensão final da manifestação em Paris, mas a organização antecipa uma grande concentração. Bertrand Venteau sublinha que o objetivo não passa, numa primeira fase, por bloquear a atividade quotidiana da cidade, mas admite uma presença significativa caso os tratores não sejam travados pelas forças de segurança.
Em paralelo com a marcha para a capital, continuam a verificar-se bloqueios e ações locais em várias regiões, incluindo Isère, Drôme, Haute-Garonne, Gard e Puy-de-Dôme, sinal de que a contestação permanece descentralizada e difícil de conter.
Um conflito que vem de dezembro
A atual mobilização dá continuidade aos protestos iniciados em dezembro, quando agricultores do sudoeste do país começaram a bloquear estradas e a realizar ações simbólicas contra a política de abate sanitário de gado. Nessa altura, registaram-se despejos de estrume junto a edifícios públicos, ações de vandalização simbólica e manifestações mediáticas, como a colocação de um caixão em frente à residência do Presidente Emmanuel Macron, em Le Touquet.
O Governo alertou então para a necessidade de evitar novos bloqueios durante o período festivo, com o ministro do Interior a pedir responsabilidade aos manifestantes e a porta-voz do executivo a garantir que novos bloqueios não seriam tolerados. Apesar disso, a Coordenação Rural recusou decretar uma verdadeira trégua de Natal, limitando-se a recomendar uma pausa informal nas ações mais duras.
Reuniões no Governo sem consenso à vista
Nos últimos dias, Sébastien Lecornu reuniu-se com os Jovens Agricultores, com a Coordenação Rural e com a FNSEA, estando ainda previsto um encontro com a Confédération Paysanne. As posições continuam, porém, distantes. Enquanto alguns sindicatos admitem suspender os protestos mediante garantias claras sobre o fim dos abatimentos em massa, a ala mais dura defende a manutenção da pressão nas ruas.
A manifestação desta quinta-feira surge, assim, como um novo teste à capacidade do Governo francês para conter uma crise agrícola que combina fatores sanitários, comerciais e sociais e que ameaça prolongar-se ao longo das próximas semanas.






