Portugal há quase um mês com excesso de mortalidade: Especialista aponta ‘cocktail’ explosivo de causas e alerta para tendência de piorar

Portugal atravessa um dos períodos mais prolongados de excesso de mortalidade dos últimos anos, num contexto marcado pela conjugação de temperaturas mais baixas, circulação intensa de vírus respiratórios e fragilidades estruturais associadas ao envelhecimento da população.

Pedro Zagacho Gonçalves

Portugal atravessa um dos períodos mais prolongados de excesso de mortalidade dos últimos anos, num contexto marcado pela conjugação de temperaturas mais baixas, circulação intensa de vírus respiratórios e fragilidades estruturais associadas ao envelhecimento da população. Desde meados de dezembro, o número diário de óbitos mantém-se acima do expectável, uma realidade que, segundo os especialistas, exige uma leitura prudente, integrada e sustentada em dados mais finos do que a simples evolução numérica.

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Em entrevista exclusiva à Executive Digest, Bernardo Gomes, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), sublinha que a monitorização rigorosa destes fenómenos é essencial e destaca o papel central do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA). “Esta questão da monitorização da mortalidade tem métodos e exige investimento contínuo, e é isso que o INSA faz, incluindo o sistema de alerta para eventuais excessos de mortalidade, seja associados ao frio ou ao calor”, afirma.

Um inverno mais exigente num país mais envelhecido
De acordo com Bernardo Gomes, o atual excesso de mortalidade resulta da sobreposição de vários fatores que se reforçam mutuamente. O primeiro prende-se com as condições meteorológicas. “Tivemos um dezembro relativamente frio, que se juntou às infeções tradicionais, nomeadamente a gripe”, explica, sublinhando que determinadas estirpes gripais têm maior capacidade de infeção, o que aumenta inevitavelmente o risco de complicações.

“Quando se infetam mais pessoas, há uma proporção expectável de complicações, desde infeções bacterianas secundárias até eventos cardiovasculares, enquadráveis num estado pró-inflamatório após a infeção gripal”, acrescenta o presidente da ANMSP, salientando que este impacto se faz sentir sobretudo nos grupos mais vulneráveis.

Mas o frio e a gripe são apenas parte da equação. “Estamos a ficar mais velhos enquanto país e temos mais pessoas vulneráveis, com idade avançada e doenças crónicas acumuladas”, refere Bernardo Gomes. Esta vulnerabilidade biológica cruza-se com desigualdades sociais persistentes, criando um terreno fértil para o agravamento dos efeitos do inverno.

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Pobreza energética e riscos invisíveis dentro de casa
Outro elemento determinante identificado pelo especialista é a pobreza energética, particularmente entre a população mais envelhecida. “Há uma margem significativa da população que não tem capacidade de mitigar o frio em termos térmicos, seja por falta de isolamento adequado, seja por dificuldades económicas”, afirma.

A este problema junta-se um fator adicional, muitas vezes invisível nas estatísticas. “Temos situações em que as pessoas recorrem à combustão dentro das próprias casas para se aquecerem, o que pode resultar em acidentes graves ou intoxicações”, alerta Bernardo Gomes, enquadrando este fenómeno num contexto mais amplo de vulnerabilidade social.

Perante esta combinação, o excesso de mortalidade torna-se, segundo o responsável, um resultado expectável. “Não é estranho que estejamos a observar um excesso de mortalidade comparativamente a anos anteriores, porque tivemos aqui um conjunto de fatores diferentes a atuar em simultâneo”, afirma.

Um fenómeno recorrente, mas com uma fatura pesada
Apesar da gravidade dos números, Bernardo Gomes pede cautela na interpretação. “Se olharmos para o histórico da mortalidade em Portugal, já tivemos épocas gripais, como a de 2023-2024, em que os valores não andavam muito longe dos atuais”, recorda, acrescentando que, em alguns anos, “entrámos pior em janeiro do que hoje”.

O especialista explica que estes ciclos obedecem a padrões conhecidos na epidemiologia. “O excesso de mortalidade é uma fatura estabelecida por variáveis que não se alteram de um dia para o outro, como o envelhecimento ou a vulnerabilidade social”, sublinha. E alerta que muitas destas respostas extravasam o domínio estrito da saúde.

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“A pobreza energética, por exemplo, exige medidas de médio prazo que vão muito para além do Ministério da Saúde”, defende, reforçando a necessidade de políticas públicas integradas.

Hospitais sob pressão e respostas de curto prazo
Enquanto o fenómeno persiste, os hospitais continuam a responder ao aumento da procura. “Por trás da mortalidade existe todo um conjunto de eventos e complicações às quais os hospitais estão a dar resposta, ajustando-se através de planos de contingência”, explica Bernardo Gomes.

Entre as medidas imediatas com impacto potencial na redução da mortalidade, o presidente da ANMSP destaca “o cuidado possível no aconchego contra o frio, as campanhas de sensibilização e a vacinação”. Embora reconheça que grande parte da população já foi vacinada, sublinha que “ainda existe algum benefício na vacinação, sobretudo nos grupos de risco”.

Ainda assim, lembra que a mortalidade é um fenómeno dinâmico. “Há anos em que morre mais gente do que noutros, e este ano estamos a assistir a uma conjugação de fatores que se sobrepôs às fragilidades estruturais da nossa sociedade”, afirma.

O chamado “efeito de colheita” e o que pode vir a seguir
Questionado sobre a duração deste ciclo, Bernardo Gomes admite que não é possível prever quando terminará. No entanto, aponta para um fenómeno bem conhecido. “Após um período prolongado de excesso de mortalidade, é expectável que surja um período normal ou até abaixo do esperado”, explica, referindo-se ao chamado harvest effect.

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“Nestas circunstâncias, as pessoas mais vulneráveis acabam por morrer mais cedo, o que leva a um ajustamento posterior das contas da mortalidade”, descreve, salientando que este efeito já foi observado noutras situações de stress populacional, como ondas de calor ou frio intenso.

Diferenças regionais e necessidade de dados mais finos
Outro aspeto central destacado pelo especialista é a importância da desagregação dos dados. “Para perceber verdadeiramente o que se está a passar, precisamos de analisar os números por áreas geográficas mais finas”, defende, admitindo que há regiões onde o impacto pode ser mais marcado.

“Sabemos que, por exemplo, a região Norte pode estar a ser mais afetada, enquanto outras zonas, como o Algarve, tendem a ter menor pressão devido a condições climáticas mais amenas”, explica, alertando para os limites da informação atualmente disponível.

Apesar disso, os dados existentes apontam para um padrão claro. “A mortalidade de todas as causas concentra-se sobretudo em indivíduos mais velhos, o que reforça a ideia de que estamos perante fenómenos ligados à vulnerabilidade orgânica e social”, afirma.

Um desafio que vai além da saúde
Para Bernardo Gomes, este inverno particularmente exigente deve servir de alerta. “Não é apenas mais do mesmo. É um ciclo mais difícil porque houve uma conjugação de fatores que cobraram o seu preço”, afirma, lembrando que situações semelhantes já ocorreram no passado, como na época de inverno de 2023/2024.

No final, deixa um aviso claro: “Não é o Ministério da Saúde, isoladamente, que resolve estes problemas”. O envelhecimento da população, as desigualdades sociais, as fragilidades habitacionais e a pobreza energética exigem respostas estruturais e coordenadas.

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“Temos de nos preparar como sociedade para cuidar de uma população cada vez mais envelhecida, com estas características e vulnerabilidades”, conclui.

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