O enviado especial dos Estados Unidos para o Médio Oriente, Steven Witkoff, está sob suspeita após uma investigação independente no universo das criptomoedas indicar que poderá estar ligado a uma aposta que rendeu mais de 400 mil dólares (mais de 340 mil euros) com base na detenção de Nicolás Maduro. A operação ocorreu poucas horas antes da captura do presidente venezuelano, numa intervenção militar ordenada por Donald Trump, levantando suspeitas de possível utilização de informação confidencial de Estado.
A investigação foi tornada pública por um conhecido analista de blockchain, que identificou movimentos financeiros anómalos num mercado de previsões online, coincidindo de forma precisa com a cronologia da operação militar norte-americana em Caracas.
A aposta em causa foi efetuada na plataforma Polymarket, um mercado de previsões que permite aos utilizadores apostar em acontecimentos reais. Uma conta criada recentemente investiu 33.933,26 dólares poucas horas antes da captura de Nicolás Maduro, transformando esse montante num ganho de 443.815,28 dólares após a confirmação da detenção.
O “timing” da operação levantou imediatamente suspeitas entre especialistas em criptomoedas, uma vez que, até poucas horas antes, o mercado atribuía uma probabilidade extremamente baixa à queda de Maduro. Na tarde de sexta-feira, 2 de janeiro, a opção “Sim” — que previa a remoção do poder do líder venezuelano antes de 31 de janeiro — era negociada a apenas 0,07 dólares, refletindo a perceção generalizada de que o cenário era altamente improvável.
Como funcionava a aposta sobre Maduro
A regra do mercado era simples: a aposta seria resolvida como “Sim” se Nicolás Maduro fosse “retirado do poder” antes do final de janeiro, incluindo cenários como demissão, detenção ou incapacidade para exercer funções. Pouco antes da execução da operação militar, a conta sob suspeita adquiriu um grande volume dessa opção a preço reduzido. Após a confirmação da captura, o valor disparou, permitindo uma valorização quase imediata da posição.
Maduro enfrenta agora acusações de conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos, bem como conspiração para a posse desses armamentos contra os Estados Unidos.
Rasto do dinheiro analisado em blockchain
O analista conhecido na rede social X como @Andrey_10gwei publicou uma extensa publicação explicativa onde detalha o percurso do dinheiro utilizado na aposta. Segundo a sua análise, a conta de Polymarket foi financiada por duas carteiras que apresentavam um padrão de atividade mínimo, recebendo fundos a partir da plataforma Coinbase e transferindo-os quase de imediato para o mercado de previsões.
Este tipo de comportamento, descrito como “limpo” no jargão cripto, é frequentemente interpretado como uma tentativa de reduzir rastos digitais. O elemento central da investigação surge na blockchain Solana, onde foi identificada uma transferência de 252,39 SOL proveniente da Coinbase para uma dessas carteiras. O analista encontrou depois um depósito quase idêntico — 252,91 SOL — feito a partir de outra carteira para a Coinbase nas 24 horas anteriores, diferença atribuída a comissões e arredondamentos.
Embora estes indícios não provem identidade por si só, a repetição de valores, tempos e rotas semelhantes permite construir hipóteses consistentes quando analisadas em conjunto.
Domínios .sol e ligação ao nome de Witkoff
Outro elemento relevante da investigação prende-se com os domínios .sol, associados ao Solana Name Service, que permitem atribuir nomes legíveis a carteiras digitais. O analista afirma ter identificado domínios como STVLU.sol, StCharles.sol e StevenCharles.sol em carteiras ligadas a fluxos financeiros entre a Coinbase e a Polymarket.
Segundo sustenta, estes nomes são compatíveis com o nome completo de Steven Charles Witkoff, o que reforça a suspeita de que o enviado especial dos EUA, ou alguém do seu círculo próximo, possa estar por detrás da operação. Ainda assim, o próprio investigador reconhece que a auditoria não é conclusiva, admitindo a possibilidade de os domínios terem sido registados por terceiros com o intuito de criar uma falsa associação — embora considere improvável que alguém o fizesse de forma tão elaborada e invisível sem uma investigação profunda.
Steven Witkoff é um magnata imobiliário de Nova Iorque e um aliado próximo de Donald Trump. Foi nomeado enviado especial dos Estados Unidos para o Médio Oriente em novembro de 2024, sendo conhecido como um doador da campanha presidencial e um elemento de confiança do círculo mais restrito do presidente.
Desde a sua nomeação, tem desempenhado um papel ativo em contactos diplomáticos de alto nível, incluindo negociações relacionadas com a Ucrânia, algumas das quais decorreram recentemente em Mar-a-Lago, com a presença de Trump e do presidente ucraniano, Volodymyr Zelenski. Witkoff integrou ainda a delegação que recebeu o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, em Mar-a-Lago, a 29 de dezembro, poucos dias antes da intervenção militar na Venezuela.
O próprio Donald Trump admitiu que a decisão de avançar com a operação contra Maduro já estava tomada nessa altura, tendo sido apenas adiada devido a condições meteorológicas.
Ligação a World Liberty Financial e ao universo cripto de Trump
A suspeita ganha maior dimensão devido à ligação direta de Witkoff ao projeto World Liberty Financial (WLFI), uma plataforma de finanças descentralizadas associada à família Trump. No site oficial do projeto, Steven Witkoff surge como “co-founder emeritus”, enquanto os seus filhos, Zach e Alex Witkoff, são identificados como cofundadores.
Do lado da família Trump, Donald Trump também figura como “co-founder emeritus”, com Eric Trump, Donald Trump Jr. e Barron Trump listados como cofundadores. O projeto, lançado em 2024, utiliza o token $WLFI como ativo de governação e permite operações de crédito, empréstimos e transações fora do sistema bancário tradicional. A estrutura prevê que a família Trump receba 75% dos lucros líquidos, enquanto a família Witkoff assegura a vertente operacional e técnica.
É neste contexto que a hipótese levantada pelo analista se torna particularmente sensível. Caso alguém com acesso a informação estratégica sobre decisões de Estado participe em mercados de previsão, a linha entre intuição legítima e vantagem informativa torna-se difusa.
A própria natureza da Polymarket — onde os utilizadores podem comprar e vender posições antes do desfecho final — potencia ganhos rápidos quando um evento é conhecido antecipadamente por um número restrito de pessoas. Embora os fundos entrem geralmente sob a forma de stablecoins, como a USDC, os depósitos a partir de plataformas reguladas como a Coinbase implicam que os utilizadores estejam identificados, o que pode permitir a associação entre identidades reais e carteiras digitais mediante pedidos legais.
O caso reabre o debate sobre a regulação destes mercados. Em 2022, a Comissão de Comércio de Futuros de Matérias-Primas dos EUA sancionou a Polymarket e obrigou-a a bloquear utilizadores norte-americanos, considerando estes contratos derivados não registados. Em 2025, a plataforma obteve autorização para regressar ao mercado dos EUA sob um enquadramento mais restrito.
Este percurso ajuda a explicar porque muitos especialistas descrevem estes mercados como operando numa “zona cinzenta” legal. Ao contrário do mercado bolsista tradicional, onde o uso de informação privilegiada é claramente tipificado, a discussão sobre vantagem informativa em mercados de previsão é recente e ainda não consensual.
A ironia, sublinham os analistas, é que estas plataformas se apresentam como instrumentos de agregação da “verdade coletiva”, mas podem, ao mesmo tempo, amplificar o poder de quem tem acesso antecipado a decisões internas de elevado impacto político e militar.











