A estranha obsessão do Japão pelo KFC no Natal que dura há 50 anos

Fenómeno destaca-se não apenas pela sua singularidade cultural, mas também pelo impacto económico

Francisco Laranjeira

Milhões de pessoas em todo o Japão voltaram este ano a celebrar o Natal com frango frito, batatas fritas e biscoitos comprados no Kentucky Fried Chicken, numa tradição improvável que continua a surpreender fora do país. Segundo a revista ‘Newsweek’, a cadeia tornou-se parte central da época natalícia japonesa, ao ponto de a véspera de Natal ser o dia mais movimentado do ano para a marca.

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O fenómeno destaca-se não apenas pela sua singularidade cultural, mas também pelo impacto económico. O KFC é atualmente a terceira cadeia de fast-food mais lucrativa do mundo, avaliada em cerca de 14,2 mil milhões de euros, com mais de 30 mil restaurantes espalhados globalmente, incluindo mais de 1.100 no Japão.

Este sucesso é frequentemente citado como um exemplo paradigmático de marketing intercultural, demonstrando como uma marca estrangeira pode ser reinterpretada e integrada numa cultura com hábitos festivos muito distintos dos ocidentais.

Uma campanha dos anos 70 que mudou o Natal japonês

A origem da tradição remonta à década de 1970. Takeshi Okawara, gestor da primeira loja da KFC no Japão e antigo aluno de Harvard, terá ouvido clientes estrangeiros lamentarem a ausência de jantares de peru na época natalícia. Perante essa lacuna cultural, lançou uma campanha promocional pontual com baldes de frango, que acabou por ganhar vida própria.

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“O KFC preencheu um vazio. Não havia uma tradição de Natal no Japão, e a marca surgiu com uma proposta clara do que fazer nessa data”, explicou à ‘BBC’ o professor de marketing Joonas Rokka, citado pela ‘Newsweek’.

Com o passar dos anos, a procura cresceu de forma acentuada. Atualmente, muitos clientes fazem encomendas com até seis semanas de antecedência, sendo os levantamentos rigidamente calendarizados. A véspera de Natal tornou-se, assim, o pico absoluto da atividade da cadeia no país.

Preços elevados e filas antecipadas

Um menu especial de Natal pode custar cerca de 34 euros, um valor elevado para padrões de fast-food, embora a empresa tenha introduzido pequenos descontos para quem faz pré-encomendas online, numa tentativa de reduzir tempos de espera e filas nas lojas.

A popularidade da tradição gerou também interpretações curiosas. Um comediante japonês citado pela ‘Newsweek’ contou que muitos estrangeiros lhe perguntam porque é que todos comem KFC no Japão, enquanto muitos japoneses acreditam que o frango frito é um costume natalício comum no Ocidente.

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Influenciadores digitais em Tóquio ajudam a amplificar o fenómeno, partilhando nas redes sociais os conteúdos dos chamados “baldes de Natal”, que incluem diferentes variedades de frango, sobremesas e até objetos comemorativos.

Uma tradição que não mostra sinais de abrandar

O que começou como uma campanha de um dia transformou-se numa febre nacional recorrente todos os meses de Dezembro. Segundo a ‘Newsweek’, os banquetes de Natal representam atualmente cerca de um terço da receita anual do KFC no Japão, um peso suficiente para garantir a continuidade da iniciativa por muitos anos.

Cinco décadas depois, a obsessão japonesa pelo KFC no Natal permanece um dos exemplos mais improváveis — e bem-sucedidos — de como o marketing pode moldar tradições culturais inteiras.

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