Nos bastidores do acordo: Como a UE fechou o empréstimo de 90 mil milhões à Ucrânia

O acordo histórico que assegura à Ucrânia um financiamento europeu de 90 mil milhões de euros foi fechado longe das salas formais do Conselho Europeu, numa sucessão de reuniões paralelas, resistências políticas e soluções de último recurso que transformaram uma cimeira decisiva numa verdadeira prova de stress à unidade da União Europeia.

Pedro Gonçalves
Dezembro 23, 2025
15:56

O acordo histórico que assegura à Ucrânia um financiamento europeu de 90 mil milhões de euros foi fechado longe das salas formais do Conselho Europeu, numa sucessão de reuniões paralelas, resistências políticas e soluções de último recurso que transformaram uma cimeira decisiva numa verdadeira prova de stress à unidade da União Europeia.

De acordo com uma reconstrução dos acontecimentos feita pela Euronews, com base em conversas com diplomatas envolvidos no processo, o entendimento final foi alcançado após o colapso de uma proposta inicial baseada em ativos russos congelados, obrigando os líderes europeus a recorrer a uma alternativa politicamente sensível: endividamento conjunto garantido pelo orçamento da União.

O plano que dominou os bastidores nos dias que antecederam a cimeira previa a emissão de um empréstimo de reparações à Ucrânia, sustentado por ativos russos imobilizados, maioritariamente na Bélgica. A solução contava com o apoio do chanceler alemão Friedrich Merz, da primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, mas enfrentou forte resistência do primeiro-ministro belga Bart de Wever.

Embora De Wever tenha reiterado que a Ucrânia precisava urgentemente de apoio financeiro, alertou para os riscos sistémicos da proposta, sublinhando que a Bélgica não poderia suportar sozinha eventuais impactos sobre o seu sistema financeiro ou sobre a estabilidade da zona euro. As dúvidas ganharam força após um relatório da agência Fitch colocar o depositário Euroclear, que detém os ativos russos congelados, sob vigilância negativa, devido a riscos jurídicos e de liquidez. “A ideia de risco sistémico não é brincadeira”, resumiu um diplomata envolvido nas negociações.

Já no interior da cimeira, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky dirigiu-se aos 27 líderes europeus, defendendo que a Rússia, enquanto agressor, deveria pagar os danos causados e classificando o empréstimo de reparações como uma solução “inteligente e justa”. Após sair da sala, endureceu o tom em declarações públicas, avisando que sem um reforço financeiro até à primavera, o esforço de guerra da Ucrânia ficaria seriamente comprometido.

Apesar do apoio político à ideia, intervenções críticas — incluindo da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán — tornaram claro que a proposta não reunia consenso. Exigências belgas de garantias ilimitadas agravaram o impasse, levando o presidente do Conselho Europeu, António Costa, a reconhecer que o plano tinha chegado a um beco sem saída.

António Costa ativou plano alternativo para evitar colapso do apoio

Perante o bloqueio, Costa assumiu a liderança política e apresentou a chamada “opção B”: financiamento através de empréstimos conjuntos da União Europeia, garantidos pelo orçamento comunitário, cobrindo as necessidades financeiras da Ucrânia em 2026 e 2027. A solução exigia unanimidade, mas Costa sugeriu avançar desde que Orbán não exercesse o veto.

“Costa percebeu que o empréstimo de reparações estava bloqueado e tomou a dianteira para ativar o plano B”, explicou um diplomata, acrescentando que essa decisão “mudou o rumo da noite”.

Com o plano alternativo em cima da mesa, Orbán reuniu-se à margem com o antigo primeiro-ministro checo Andrej Babiš e o chefe do Governo eslovaco Robert Fico. Deste encontro saiu uma solução baseada na cooperação reforçada, prevista nos tratados europeus, permitindo que os países dispostos a financiar a Ucrânia avançassem sem obrigar todos os Estados-membros a participar.

A proposta foi rapidamente formalizada e permitiu ultrapassar o bloqueio político. Dois diplomatas asseguraram que nada foi prometido a Orbán em troca da retirada do veto, sublinhando que, apesar das suas reservas em relação a Kiev, o colapso financeiro da Ucrânia não serviria os interesses da Hungria.

Com o acordo fechado, seguiram-se as leituras políticas. Bart de Wever celebrou o desfecho como uma vitória tripla para a Ucrânia, a Europa e o direito internacional, afirmando que “financiar a Ucrânia não é caridade, é o investimento mais importante na nossa própria segurança”. António Costa destacou que a União Europeia cumpriu a promessa de apoiar Kiev.

Já para Ursula von der Leyen e Friedrich Merz, o resultado teve um sabor amargo. Ambos ficaram politicamente fragilizados, depois de a solução final ter abandonado o modelo que defenderam. Um responsável europeu descreveu o momento como “desconfortável”, admitindo que Costa foi visto por vários líderes como um mediador mais imparcial.

Apesar das tensões, as conclusões finais deixaram aberta a possibilidade de, no futuro, recorrer aos ativos russos congelados, sem especificar como. Mais relevante ainda, ficou demonstrado que a União Europeia conseguiu tomar uma decisão estrutural de enorme impacto sem unanimidade, garantindo o financiamento da Ucrânia através de endividamento comum entre 24 Estados-membros — um passo considerado extraordinário e revelador da capacidade de adaptação do projeto europeu.

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