A palavra da moda na política americana é “acessibilidade”. Não se trata das polémicas que marcaram o segundo mandato de Donald Trump, como os documentos de Jeffrey Epstein ou operações controversas da administração anterior, mas sim do impacto do custo de vida sobre a classe média e trabalhadora nos EUA. O preço dos alimentos, da habitação e dos cuidados de saúde tem-se tornado um fator decisivo no voto, lembrando a máxima “É a economia, estúpido”.
O regresso de Trump e o peso da economia
Trump entrou na política em 2016 com uma mensagem económica centrada no descontentamento social face à globalização, lembrou o jornal espanhol ‘ABC’. O seu slogan, “Make America Great Again”, apelava a uma América economicamente enfraquecida. O regresso à presidência, no ano passado, foi igualmente impulsionado pelo descontentamento com a economia e a inflação durante o Governo de Joe Biden.
Onze meses depois, contudo, a economia transformou-se num desafio. Durante a campanha do último outono, Trump prometeu reduzir a inflação, então em queda, e anunciou o início de uma “nova era dourada” para o país. Hoje, apesar de se vangloriar de investimentos estrangeiros, recordes do mercado bolsista e descidas de preços isoladas, a realidade sentida pelos eleitores é diferente: a inflação mantém-se elevada, rondando os 3%, e os preços dos imóveis e dos bens de consumo continuam a subir.
Impacto político do custo de vida
O aumento do custo de vida influenciou eleições recentes e sondagens. Em Nova Iorque, o socialista Zohran Mamdani capitalizou a questão económica. Vitórias democratas na Virgínia e em Nova Jérsia reforçaram a importância deste tema, assim como uma eleição suplementar no Tennessee e a escolha do primeiro presidente de câmara democrata em Miami em três décadas. Nas sondagens nacionais, apenas 31% dos americanos aprovam a gestão económica de Trump, a pior taxa dos seus dois mandatos, enquanto 37% dos eleitores que votaram nele consideram que o custo de vida é o mais elevado de que se lembram.
Tentativas de controlo da narrativa
Trump procura desviar a atenção, insistindo que é o “presidente da acessibilidade” e acusando os democratas de manipularem o debate económico. Nas redes sociais e em reuniões do seu Gabinete, rejeita o problema como uma “farsa” e atribui à administração anterior a responsabilidade pelo descontentamento. J. D. Vance, vice-presidente, reconheceu a situação e apontou para 2026 como o ano de recuperação económica.
Apesar de negar os problemas, Trump continua a prometer cortes de impostos e preços mais baixos na gasolina, e iniciou uma digressão por estados estratégicos, incluindo Pensilvânia e Carolina do Norte, para reforçar a sua mensagem. O objetivo é convencer os eleitores de que está a conduzir os Estados Unidos para um “boom económico” sem precedentes, mesmo que muitos cidadãos sintam a inflação e os encargos no dia a dia.
A frustração da classe média e trabalhadora está a colocar pressão sobre Trump e os republicanos. O custo de vida tornou-se um tema central, capaz de moldar resultados eleitorais e alterar maiorias no Congresso. Enquanto o presidente promete uma “era dourada”, os eleitores reclamam soluções concretas para os desafios económicos que afetam diretamente as suas vidas.














