Chantagem e ameaças: Moscovo tenta amedrontar responsáveis belgas para salvar os seus biliões congelados

De acordo com essas informações, agentes da inteligência russa terão como alvo figuras-chave da Euroclear, a instituição financeira com sede na Bélgica onde se encontra a maior fatia dos ativos russos congelados desde o início da invasão da Ucrânia

Francisco Laranjeira

A Rússia terá recorrido a táticas de intimidação contra políticos belgas e altos responsáveis do setor financeiro numa tentativa de bloquear um plano europeu para utilizar cerca de 185 mil milhões de euros em ativos russos congelados para apoiar a Ucrânia, apontou o ‘Kyiv Post’, com base numa investigação do jornal britânico ‘The Guardian’ que cita fontes dos serviços de inteligência europeus.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

De acordo com essas informações, agentes da inteligência russa terão como alvo figuras-chave da Euroclear, a instituição financeira com sede na Bélgica onde se encontra a maior fatia dos ativos russos congelados desde o início da invasão da Ucrânia. Um responsável europeu citado afirmou que a operação estará provavelmente ligada ao GRU, o serviço de informações militares da Rússia, embora a dimensão exata e a gravidade das ameaças não sejam totalmente conhecidas.

As alegadas pressões terão sido dirigidas, entre outros, à diretora-executiva da Euroclear, Valérie Urbain, e a outros altos quadros do grupo financeiro. Contactada, a empresa recusou comentar casos concretos, limitando-se a sublinhar que quaisquer ameaças potenciais são tratadas com a máxima prioridade e, quando necessário, com o envolvimento das autoridades competentes. O gabinete do primeiro-ministro belga, Bart de Wever, também não comentou, enquanto o Ministério dos Negócios Estrangeiros afirmou não ter informação sobre o assunto.

O relatório surge no mesmo dia em que os líderes da União Europeia se reuniram em Bruxelas para negociações consideradas decisivas sobre a utilização dos ativos russos congelados para reforçar o apoio financeiro e militar a Kiev. A Comissão Europeia estima que a Ucrânia necessite de mais 135 mil milhões de euros nos próximos dois anos e pretende colmatar essa lacuna recorrendo a esses fundos, segundo o ‘Kyiv Post’.

A Bélgica tem sido um dos principais obstáculos ao avanço do plano, receando represálias legais e financeiras por parte de Moscovo. A Rússia já anunciou a intenção de processar a Euroclear em cerca de 230 mil milhões de dólares, segundo relatos da imprensa belga. Num discurso ao Parlamento, Bart de Wever classificou a proposta como juridicamente “questionável”, mas reconheceu que a falta de um acordo representa o “maior constrangimento geopolítico” da Europa. Ainda assim, admitiu que, se os riscos forem partilhados por todos os Estados-membros, a Bélgica poderá avançar.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

A pressão política sobre Bruxelas tem vindo a aumentar. Um artigo da ‘POLITICO’ alertou que a Bélgica poderá ficar isolada dentro da UE caso continue a bloquear o processo, perdendo influência em dossiers-chave, incluindo o próximo quadro financeiro plurianual. Em paralelo, o Kremlin tem reforçado o tom das ameaças, classificando o plano como um “ato hostil” e prometendo décadas de batalhas judiciais.

Figuras do regime russo foram ainda mais longe. Dmitry Medvedev, antigo presidente e atual vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, escreveu nas redes sociais que a Bélgica “desapareceria” se Moscovo testasse a superarma nuclear submarina Poseidon junto à sua costa. O país foi também referido como alvo de incidentes recentes com drones em aeroportos, bases militares e infraestruturas sensíveis.

Perante este cenário, líderes europeus têm apelado a uma resposta firme. O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, avisou que a Europa enfrenta uma escolha clara: “Ou dinheiro hoje, ou sangue amanhã.” Já a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, defendeu que é essencial demonstrar força, enquanto o chanceler alemão, Friedrich Merz, sublinhou que o uso dos ativos enviaria “um sinal claro à Rússia”.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.