Espanha: Extremadura vai hoje a votos num teste decisivo à direita espanhola e ao futuro do sanchismo

As eleições autonómicas na Extremadura, que decorrem hoje, ganharam uma dimensão política que ultrapassa largamente a realidade desta comunidade autónoma com pouco mais de um milhão de habitantes.

Pedro Zagacho Gonçalves

As eleições autonómicas na Extremadura, que decorrem hoje, ganharam uma dimensão política que ultrapassa largamente a realidade desta comunidade autónoma com pouco mais de um milhão de habitantes. O ato eleitoral é visto como o primeiro grande teste político de um ano que poderá ser marcado por sucessivas idas às urnas em várias regiões de Espanha — Andaluzia, Castela e Leão e Aragão — e até por uma eventual antecipação de eleições legislativas nacionais, caso o primeiro-ministro Pedro Sánchez não consiga resistir ao contexto político cada vez mais adverso.

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O sufrágio extremenho surge, assim, como um barómetro da correlação de forças à direita e à extrema-direita em Espanha e como um indicador da erosão do apoio ao atual Governo socialista, numa região que foi bastião do centro-esquerda durante 36 dos 42 anos de autonomia regional.

Estas eleições servem também para medir a viabilidade da colaboração entre o Partido Popular (PP), principal força da oposição a nível nacional, e o Vox, que ambiciona consolidar-se como parceiro indispensável em futuros governos regionais e, eventualmente, num executivo central.

O líder nacional do PP, Alberto Núñez Feijóo, tem sublinhado repetidamente o “caráter nacional” destas eleições, afirmando que “a Extremadura marcará o início do fim do sanchismo”, numa referência direta ao ciclo político liderado por Pedro Sánchez desde 2018.

María Guardiola procura governar sem dependência da extrema-direita
No centro da disputa está María Guardiola, presidente da Junta da Extremadura desde 2023 e uma das figuras mais sólidas do poder regional do Partido Popular. No cargo há dois anos, Guardiola decidiu antecipar as eleições depois de não ter conseguido garantir apoio parlamentar suficiente à sua agenda legislativa, em especial por parte do Vox, parceiro incómodo com o qual formou governo após as últimas eleições.

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Na altura, a líder regional do PP fez concessões significativas para assegurar a governação, apesar de ter adotado inicialmente um discurso de forte distanciamento em relação à extrema-direita. “Não posso permitir que os que negam a violência de género, desumanizam os imigrantes e atiram a bandeira LGBTQ+ para o lixo entrem no meu governo”, afirmou então. Acabaria, no entanto, por se retratar, aceitando dois membros do Vox no executivo regional.

A rutura da coligação, agravada pelo bloqueio legislativo e pela impossibilidade de aprovar o orçamento, levou Guardiola a apostar na antecipação eleitoral, com o objetivo de alcançar uma maioria absoluta que a libertasse da dependência do partido liderado por Santiago Abascal.

Sondagens apontam para vitória insuficiente do PP
As sondagens mais recentes indicam que essa estratégia poderá não produzir o efeito desejado. Estudos publicados esta semana por dois jornais nacionais espanhóis — El País (empresa 40dB) e El Mundo (SigmaDos) — apontam para uma vitória clara do PP, com cerca de 42% dos votos, o que se traduziria em 29 a 30 deputados regionais, ainda abaixo dos 33 necessários para a maioria absoluta.

Este cenário obrigaria María Guardiola a voltar a negociar com o Vox, encabeçado na Extremadura por Óscar Fernández. O próprio Santiago Abascal já deixou claro que o apoio não será automático, avisando que “ou ela faz concessões ou haverá novas eleições”, numa alusão direta às exigências do partido em matérias como imigração, liberdades cívicas, memória histórica e violência de género.

Do lado socialista, a candidatura liderada por Miguel Ángel Gallardo apresenta uma situação inédita na política regional espanhola. O candidato do PSOE enfrenta um processo judicial por alegadamente ter favorecido a criação de um cargo para David Sánchez, músico e irmão do primeiro-ministro. É a primeira vez, na história recente de Espanha, que um candidato a presidente regional concorre estando diretamente envolvido num caso judicial.

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Atualmente, o PSOE detém 28 lugares na Assembleia da Extremadura, o mesmo número que o PP, mas as sondagens apontam para uma perda de dois a três deputados, num contexto de forte desgaste político.

À esquerda dos socialistas surge a coligação Unidos pela Extremadura, liderada por Irene de Miguel, que reúne Podemos, Esquerda Unida e a Aliança Verde. Segundo dados do Centro de Investigações Sociológicas (CIS), esta aliança poderá capitalizar o descontentamento de eleitores do PSOE e alcançar até sete assentos, mais três do que atualmente, assumindo um papel relevante no equilíbrio parlamentar.

Economia, desemprego e o peso estratégico de Almaraz
A Extremadura representa apenas 1,7% do PIB espanhol e continua a figurar entre as regiões economicamente mais frágeis do país, apesar de melhorias recentes em indicadores-chave. O desemprego situa-se atualmente em 65.813 pessoas, a taxa mais baixa dos últimos 30 anos.

Uma das grandes questões económicas em debate é o futuro da central nuclear de Almaraz, cuja desativação está prevista para 2027-2028 pelo Governo central. A central é a principal indústria da região, emprega diretamente centenas de trabalhadores e sustenta milhares de famílias, tendo transformado a localidade onde se encontra numa das mais prósperas da Extremadura.

Com exceção de Irene de Miguel, todos os principais candidatos defendem a continuidade da central, cujas empresas proprietárias já solicitaram formalmente uma prorrogação da atividade. A região aguarda ainda a instalação de dois centros de dados e de uma fábrica chinesa de baterias de lítio, projetos vistos como cruciais para a diversificação económica.

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Um contexto nacional adverso para Pedro Sánchez
Estas eleições realizam-se num momento particularmente difícil para o PSOE e para o Governo de coligação liderado por Pedro Sánchez, apoiado pela frente esquerdista Somar. O Executivo enfrenta níveis de popularidade historicamente baixos, num contexto marcado por escândalos de corrupção que atingem figuras próximas do primeiro-ministro, conflitos com o poder judicial e um crescimento acentuado de forças ultraconservadoras, sobretudo entre os mais jovens.

Apesar disso, Sánchez tem reiterado a intenção de cumprir o mandato até ao fim, em 2027, posição coerente com o que escreveu no livro Manual de resistência, publicado em 2019, onde defende a importância de honrar compromissos políticos.

Ainda assim, sondagens indicam que 65,7% dos inquiridos defendem a convocação de eleições legislativas antecipadas. Um inquérito citado pelo jornal digital El Español aponta para uma diferença potencial de 55 lugares entre o bloco conservador (PP, Vox e União do Povo Navarro) e a atual maioria parlamentar que sustenta o Governo.

O afastamento do partido Juntos, liderado por Carles Puigdemont, agravou a instabilidade parlamentar, bloqueando a atividade legislativa e mantendo Espanha, há dois anos, em regime de duodécimos orçamentais.

Escândalos, fuga de eleitores e desgaste do discurso progressista
Os danos reputacionais causados por casos como a condenação do ex-procurador-geral Álvaro García Ortiz e as investigações envolvendo familiares de Sánchez têm afastado eleitores tradicionais do PSOE. Um estudo recente da SigmaDos revela que 3,9% dos eleitores socialistas de 2023 optariam agora pelo Vox, que poderá captar cerca de 300 mil votos em bairros operários de grandes cidades.

Esta transferência é particularmente visível entre os jovens dos 18 aos 24 anos, num contexto de frustração com a precariedade laboral, o elevado custo da habitação e a desilusão com a classe política. O discurso polarizador do primeiro-ministro — “ou nós ou a extrema-direita” — perdeu eficácia junto deste eleitorado.

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A campanha ficou ainda marcada por um novo caso sensível para o PSOE, relacionado com alegações de assédio sexual contra Francisco Salazar, conselheiro próximo de Sánchez no Palácio de Moncloa. As denúncias, feitas por várias assistentes, terão sido silenciadas durante meses, levando a críticas quanto à resposta tardia da direção socialista.

Apesar dos pedidos públicos de desculpa, vozes internas alertam para o impacto do episódio. “Este episódio é um escândalo e ameaça corromper um dos fundamentos do partido, a sua essência feminista”, afirmou o militante socialista Emiliano Almenara, defendendo uma resposta firme e exemplar.

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