Joan Pujol, o lendário agente duplo catalão que enganou Hitler durante a II Guerra Mundial, é ainda hoje considerado um dos maiores espiões da História. Os britânicos chegaram a classificá-lo como “o maior ator do mundo”, depois de os seus relatórios terem convencido o regime nazi de que o desembarque aliado na Normandia não aconteceria — mesmo quando já estava em curso. Um mito da espionagem clássica que contrasta, mas também dialoga, com os métodos usados atualmente pelos serviços secretos chineses para recolher informação no Ocidente, relata o ‘El Economista’.
Durante anos, multiplicaram-se notícias na imprensa anglo-saxónica sobre supostos espiões chineses a tentarem obter dados sensíveis através de falsas ofertas de emprego no LinkedIn. O tema ganhou maior projeção no mês passado, quando o diretor do MI5 alertou no Parlamento britânico para tentativas de espionagem dirigidas a políticos e empresários, utilizando precisamente a rede social profissional.
Do roubo de segredos de Estado à engenharia social
Segundo investigações citadas pelo ‘El Economista’, estas operações visam um vasto leque de informação, desde segredos de Estado e dados industriais confidenciais até conhecimento sobre modelos de negócio, cultura corporativa e projetos estratégicos. Os alvos incluem militares, deputados e tecnólogos do Silicon Valley. Estimativas referidas pelo ‘The Times’ apontam para prejuízos anuais na ordem dos 600 mil milhões de dólares associados ao roubo de propriedade intelectual.
Os métodos também evoluíram. Inicialmente, agentes ligados ao Guoanbu, os serviços de informação chineses, recorriam a anúncios de emprego para atrair profissionais com redes de contactos relevantes, como consultores políticos ou gestores de engenharia. Mais recentemente, estas práticas estenderam-se à organização de eventos aparentemente legítimos, como conferências, sessões de networking, hackathons ou encontros de brainstorming, concebidos para recolher informação comercial de forma indireta.
Em casos mais extremos, meios de comunicação americanos relatam o uso de agentes como instrumentos de sedução, criando relações pessoais ou românticas com os alvos através de redes sociais e aplicações de encontros, com o objetivo de ganhar confiança e extrair dados sensíveis.
Empresas no centro da nova espionagem industrial
Este cenário de espionagem digital em larga escala representa um desafio crescente para as empresas. Eric Maciá Lang, responsável pela área de consultoria jurídica em I&D da Pons IP, sublinha que o contexto atual — marcado pela aceleração tecnológica, concorrência intensa e tensões geopolíticas — tornou a informação corporativa mais valiosa e, ao mesmo tempo, mais vulnerável.
Numa espécie de “Guerra Fria 2.0”, o especialista alerta para a normalização de operações de espionagem industrial e tentativas de aliciamento de trabalhadores, sobretudo em setores estratégicos como a biotecnologia, os semicondutores ou a energia. O caso recente da TSMC, em Taiwan, onde funcionários terão divulgado planos e imagens de maquinaria crítica, foi mesmo classificado como ameaça à segurança nacional pelas autoridades locais.
O fator humano como elo mais fraco
Dados citados no artigo indicam que entre 30% e 40% dos ciberataques bem-sucedidos incluem algum elemento de engenharia social. Estas técnicas exploram falhas humanas para induzir a partilha voluntária de informação sensível. Para Lang, o investimento em formação em cibersegurança e proteção de segredos comerciais continua a ser uma das medidas com melhor retorno para as empresas.
Tal como Joan Pujol misturava informação real com dados fabricados para confundir o inimigo, a espionagem contemporânea combina métodos clássicos com ferramentas digitais. O engano permanece no centro da atividade, agora amplificado por redes sociais, comunicação online e estratégias de guerra híbrida, numa realidade em que a fronteira entre o mundo físico e o digital se torna cada vez mais difusa.













