Donald Trump continua a pressionar para alcançar um acordo de paz na Ucrânia antes do Natal, numa tentativa de garantir uma vitória política junto dos seus apoiantes em plena controvérsia em torno do caso Epstein. Segundo o ‘El Mundo’, o antigo presidente americano instruiu os seus negociadores, Steve Witkoff e Jared Kushner, a obterem em Berlim um compromisso claro de Kiev que permita avançar para um entendimento.
Vários líderes internacionais, entre os quais o presidente finlandês Alexander Stubb, o turco Recep Tayyip Erdogan e o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, afirmam que “a paz está mais próxima do que nunca”. No entanto, apesar de existir um princípio de concordância em cerca de 80% dos pontos em discussão, subsistem três grandes obstáculos que continuam a bloquear um acordo global. Um deles é considerado, por várias fontes diplomáticas, praticamente intransponível.
O embaixador russo no Reino Unido, Andrey Kelin, resumiu a posição de Moscovo ao afirmar que “este não é um texto de paz com a Ucrânia, é simplesmente a sua rendição”. Embora haja entendimento preliminar sobre questões como a realização de eleições na Ucrânia — Volodymyr Zelensky já pediu à sua equipa que estude alterações à lei marcial para o permitir —, as divergências centrais permanecem profundas.
Donetsk, a linha vermelha territorial
A principal exigência russa passa pela transferência integral da região de Donetsk para a soberania da Rússia. Trata-se de uma reivindicação maximalista de Vladimir Putin, que lhe permitiria apresentar o desfecho do conflito como uma “vitória”, algo que não conseguiu alcançar militarmente desde o início da ofensiva no Donbas, em 2014, e novamente em 2022.
Para Zelensky, esta condição constitui uma linha vermelha absoluta, com consequências políticas potencialmente devastadoras. Uma sondagem recente citada pelo El Mundo indica que 75% dos ucranianos rejeitam qualquer retirada do Donbas. Apesar da insistência de Witkoff durante as conversações em Berlim, o presidente ucraniano voltou a recusar a proposta.
Como alternativa, os EUA ponderam, em articulação com Moscovo, a criação de uma zona desmilitarizada em toda a área, sem presença de tropas russas ou ucranianas. Kiev admite esse cenário apenas se a segurança for garantida por uma missão militar estrangeira. Moscovo, porém, contrapõe que a zona seja patrulhada pela polícia russa e pela Guarda Nacional Russa, a Rosgvardia, uma força que responde diretamente a Putin, solução que a Ucrânia rejeita liminarmente. Bruxelas e Kiev propõem, em alternativa, um congelamento da guerra na atual linha da frente, hipótese que a Rússia dificilmente aceitará.
NATO e garantias de segurança
O segundo grande impasse prende-se com o pós-guerra. A Rússia defende um acordo que mantenha o Ocidente afastado da Ucrânia e exclua garantias de segurança externas, criando condições para uma eventual nova ofensiva no futuro. Para Kiev, a melhor salvaguarda é a adesão à NATO, consciente de que, desde a criação da Aliança, nenhum país membro foi alvo de invasão russa.
Esta possibilidade é, contudo, outra linha vermelha para o Kremlin. A Ucrânia exige, como alternativa, um compromisso vinculativo semelhante ao artigo 5º da NATO, que equipara um ataque a um Estado-membro a um ataque a todos. Tal solução dependeria da disponibilidade dos Estados Unidos e da Europa para mobilizar tropas e da aceitação russa, algo que Moscovo tem recusado até agora. O El Mundo recorda ainda que a soberania ucraniana já tinha sido formalmente garantida no Memorando de Budapeste de 1994, subscrito pelos EUA e pela Rússia, tornando este acordo uma concessão territorial entre dois antigos garantes.
Ativos russos congelados e interesses divergentes
O terceiro obstáculo centra-se no destino dos ativos russos congelados. O acordo promovido por Washington daria à administração Trump controlo sobre esses fundos, mas a União Europeia recusa que os Estados Unidos sejam os únicos a beneficiar e insiste que qualquer decisão será tomada em Bruxelas.
O entendimento entre Washington e Moscovo inclui novos contratos e a exploração de matérias-primas por empresas ligadas a Trump e aos seus associados, segundo revelou o ‘The Wall Street Journal’. A estratégia europeia é distinta: utilizar esses recursos para a reconstrução da Ucrânia e preparar a sua adesão à União Europeia em 2027. As diferenças de interesses tornam improvável uma solução consensual.
A estas divergências soma-se ainda a questão dos crimes de guerra. O Tribunal Penal Internacional reiterou que nenhum acordo de paz eliminará as acusações contra Vladimir Putin nem o seu estatuto de fugitivo internacional, sublinhando que a responsabilização criminal permanece fora da mesa negocial.














