O novo ranking anual do jornal Politico sobre as figuras mais influentes do continente europeu trouxe este ano uma decisão invulgar: Donald Trump foi colocado em primeiro lugar e destacado como a pessoa mais poderosa na Europa, apesar de não ser europeu e de não trabalhar no continente. A escolha levou a publicação a quebrar uma das suas próprias regras editoriais, algo que justifica com o impacto “sem precedentes” das decisões do presidente norte-americano sobre a política, a economia e a segurança europeias.
Segundo o Politico, a Europa está hoje confrontada com um parceiro “imprevisível e dominante”, capaz de alterar o rumo do continente “da noite para o dia”. A publicação descreve Trump com o cognome “A onda de choque transatlântica”, sublinhando que nenhum outro líder — dentro ou fora da Europa — exerceu influência comparável ao longo do último ano.
O Politico explica ter sido “impossível ignorar” o impacto do presidente norte-americano ao compilar a lista anual das 28 figuras mais poderosas da Europa. A regra habitual — incluir apenas líderes que vivem ou trabalham na Europa — foi ultrapassada porque, segundo a publicação, “nenhuma pessoa influenciou mais a Europa este ano do que o presidente dos Estados Unidos”.
O texto cita mesmo as palavras de Trump numa entrevista concedida à jornalista Dasha Burns, onde o presidente justificou a sua ascendência sobre o continente afirmando: “A Europa não sabe o que fazer”. Apontou ainda a imigração como a causa do que descreveu como a “degradação” das nações europeias, acrescentando: “Querem ser politicamente corretos, e isso torna-os fracos.”
Para o Politico, os primeiros meses do segundo mandato de Trump definiram o tom de um ano “exaustivo” para diplomatas europeus. A publicação recorda as aproximações públicas a Vladimir Putin, as humilhações dirigidas ao presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy e a postura agressiva do vice-presidente JD Vance, que em Munique criticou abertamente governos europeus por marginalizarem partidos de direita radical.
O documento de Estratégia de Segurança Nacional de Trump reforçou essa linha, ao avisar que a Europa enfrenta uma “eliminação civilizacional” devido à migração e ao prometer fomentar “resistência dentro das nações europeias” contra a atual orientação política do continente.
Face à instabilidade, vários líderes europeus deslocaram-se sucessivamente a Washington, numa tentativa de conter tensões. Depois de contactos sucessivos e de elogios enviados pelo secretário-geral da NATO, Mark Rutte, Trump colocou mesmo em causa o Artigo 5 da Aliança Atlântica. Em agosto, a fragilidade do equilíbrio ficou exposta num acordo comercial desequilibrado, que levou Bruxelas a aceitar tarifas punitivas e compromissos difíceis de cumprir para garantir apenas uma trégua temporária.
O Politico resume o ciclo de forma clara: um gesto de força de Trump, seguido de tentativas de apaziguamento europeias, culminando noutra surpresa destabilizadora.
Uma parte da elite política europeia critica abertamente a abordagem de cedência permanente perante Washington. O antigo primeiro-ministro francês Dominique de Villepin afirmou que alguns líderes acreditam “que se pode responder com ponderação e razão… para aplacar o Moloch”, mas avisou que o risco está em subestimar a “vontade de vassalizar a Europa”.
O Politico aponta ainda que a administração norte-americana tem rompido com a tradição de distanciamento político no estrangeiro. O apoio público de Elon Musk à direita radical na Alemanha e no Reino Unido, as críticas de Vance em fóruns internacionais e até as palavras de incentivo enviadas por Trump a Marine Le Pen após a sua condenação por desvio de fundos da União Europeia são, segundo a publicação, sinais de que Washington está disposta a influenciar diretamente dinâmicas políticas europeias.
A influência de Trump fez-se também sentir na economia. A política “America First” em matéria energética e a promoção aberta do petróleo e gás norte-americanos alimentaram o retrocesso no apoio ao Pacto Ecológico Europeu, reforçando a ideia de que a Europa colocou objetivos climáticos acima da competitividade.
Simultaneamente, a vaga de desregulação nos Estados Unidos fragilizou o papel europeu enquanto potência regulatória global, deixando o modelo de Bruxelas — assente em regras extensas e moralizantes — aparentemente desajustado ao novo contexto internacional.
Primeiros passos rumo a uma alternativa europeia
O Politico nota, porém, que começaram a surgir movimentos para criar mais autonomia face a Washington. Países como a Alemanha e a Dinamarca estão a apostar mais em fornecedores europeus de defesa, enquanto várias capitais adotam discretamente a perspetiva francesa de que a aliança transatlântica deve ser respeitada, mas não encarada como garantida.
Num discurso considerado marcante, o chanceler alemão Friedrich Merz, outrora um atlanticista convicto, afirmou: “Temos de enfrentar o facto de que a nossa relação com os EUA está a mudar. Estamos prontos para uma cooperação próxima, mas esta parceria deixará de ser tão evidente.”
Também estrategas norte-americanos expressam preocupação. Kori Schake, antiga conselheira da Casa Branca de George W. Bush e atualmente investigadora no American Enterprise Institute, alertou que tratar aliados como rivais pode corroer a base do poder dos EUA: “Trump parece pensar que se pode tratar os amigos pior do que os inimigos.”
A advertência ganhou força em outubro, quando serviços de informação norte-americanos se deslocaram urgentemente a Bruxelas para recuperar a confiança europeia após falhas graves que levaram os Países Baixos a restringir a partilha de inteligência com Washington.
O Politico conclui que, embora a supremacia dos EUA permaneça incontestável, poderá estar no auge — e, simultaneamente, perto de enfrentar os seus próprios limites. A Europa não está pronta para abandonar a aliança, mas já iniciou, silenciosamente, o caminho para uma alternativa estratégica.
A lista completa dos 28 escolhidos pelo Politico:
Donald Trump — A onda de choque transatlântica
Mette Frederiksen — A estrela do norte
Friedrich Merz — O radical relutante
Marine Le Pen — A guerreira incansável
Vladimir Putin — O provocador
Nigel Farage — O líder sombra
Ursula von der Leyen — A mão de ferro
Mark Rutte — O sedutor diplomático
Giorgia Meloni — O modelo a seguir
Keir Starmer — O homem cinzento
Manfred Weber — O fazedor de poder
Viktor Orbán — A dor de cabeça permanente
Alexander Stubb — O caddie político
Volodymyr Zelenskyy — O imprevisível do baralho
Gabriel Zucman — O caçador de bilionários
Kaja Kallas — A indiplomática
Teresa Ribera — A guardiã da tocha
Daniel Ek — O lançador de bombas
Emmanuel Macron — O galo ferido
Mario Draghi — O oráculo
Andrej Babiš — O velho miúdo da política
Alexus Grynkewich — O dissuasor
Karol Nawrocki — O outro polaco
Heidi Reichinnek — A voz viral
Andrea Orcel — O Napoleão da banca
Rima Hassan — O megafone
Rob Jetten — A nova paixão de Bruxelas
Gianni Infantino — O jogador mais valioso














