Escudo conjunto: como Rússia e China estão a ajustar a defesa perante a pressão dos EUA

Ministério da Defesa chinês adiantou que as manobras “não tiveram qualquer relação com a atual situação internacional e regional”, sublinhando o caráter exclusivamente técnico da operação

Francisco Laranjeira

A China e a Rússia realizaram no início de dezembro um exercício conjunto antimíssil em território russo, num sinal de aprofundamento da confiança estratégica entre os dois países. De acordo com a revista ‘Newsweek’, as autoridades chinesas garantiram que a operação não teve como alvo terceiros Estados, apesar do contexto de crescente proliferação de armas de precisão na Europa e na Ásia.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Num comunicado divulgado este sábado, o Ministério da Defesa chinês adiantou que as manobras “não tiveram qualquer relação com a atual situação internacional e regional”, sublinhando o caráter exclusivamente técnico da operação.

Desde 2022, Pequim tem-se afirmado como um dos parceiros mais próximos de Moscovo, que descreve a relação bilateral como uma parceria “sem limitações ou tabus”. Os dois países têm intensificado patrulhas conjuntas e exercícios militares destinados a reforçar a prontidão das respetivas forças armadas.

O mais recente exercício decorreu num momento em que os EUA avançam com a instalação de mísseis de médio alcance no Japão e nas Filipinas, prevendo igualmente posicionar sistemas semelhantes na Alemanha em 2026. Em paralelo, a Administração Trump prossegue com o plano para desenvolver a rede de defesa antimíssil ‘Golden Dome’, concebida para proteger o território americano de ameaças aéreas diversificadas.

Terceiro exercício antimíssil conjunto

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

O Ministério da Defesa chinês precisou que este foi o terceiro exercício antimíssil desenvolvido com a Rússia, depois das edições de 2016 e 2017, estas últimas realizadas sob o código ‘Segurança Aeroespacial’. Em 2017, as simulações computacionais permitiram testar respostas conjuntas a “ataques acidentais e provocativos com mísseis balísticos e de cruzeiro”, de acordo com informação divulgada pela ‘CGTN’.

Para Dmitry Stefanovich, investigador do Instituto Primakov da Academia Russa de Ciências, a longa pausa desde 2017 pode traduzir “um crescente nível de confiança mútua” entre Moscovo e Pequim. O analista afirmou à publicação americana que “até 2025 a Rússia e a China estão prontas para algo mais impressionante”, apesar de não existirem detalhes sobre o conteúdo específico das manobras recentes.

Stefanovich destacou ainda que estes exercícios contribuem para melhorar a compatibilidade operacional das duas forças armadas. Sublinhou também a “experiência única” da Rússia na defesa contra diversas ameaças aéreas e na penetração de sistemas de defesa antimíssil em camadas, algo evidenciado na guerra na Ucrânia. Segundo o investigador, o Exército de Libertação Popular “tem interesse em obter uma parcela dessa experiência”, num cenário regional marcado pelo avanço de armas de precisão e de defesas antimíssil.

Implicações internacionais

A guerra na Ucrânia tem sido um campo de aprendizagem para diversas forças armadas. Kiev recebeu sistemas como o Patriot, o Storm Shadow e os mísseis táticos ATACMS, destinados a missões de longo alcance contra posições russas. Este contexto, segundo o Pentágono, levou a China a observar atentamente a forma como Moscovo e Kiev empregam operações de influência, ao mesmo tempo que aprofunda esforços de autossuficiência tecnológica, energética e militar.

Continue a ler após a publicidade

Num comentário adicional à ‘Newsweek’, Stefanovich afirmou que, embora os comunicados oficiais insistam na ausência de ligação entre o exercício e a evolução global do armamento, “é evidente que tais tendências não podem ser ignoradas”, incluindo a expansão da defesa antimíssil americana e a implantação de mísseis de médio alcance.

Rússia e China deverão manter a cooperação militar com o objetivo de contrabalançar as alianças lideradas pelos Estados Unidos, tanto na Europa, através da NATO, como na Ásia, com o Japão e a Coreia do Sul. Resta perceber de que forma Moscovo e Pequim irão aprofundar esta parceria estratégica num ambiente internacional cada vez mais marcado pela competição geopolítica.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.