“Ucrânia não pode aceitar um cessar-fogo que deixe a Rússia livre para atacar novamente”, garante Zelensky

Posição foi reafirmada esta terça-feira pelo presidente Volodymyr Zelensky, citado pelo ‘POLITICO’, durante a sua primeira visita oficial à Irlanda

Francisco Laranjeira
Dezembro 3, 2025
10:38

A Ucrânia não aceitará qualquer fórmula de cessar-fogo discutida entre os EUA e a Rússia que permita a Moscovo “voltar com uma terceira invasão”. A posição foi reafirmada esta terça-feira pelo presidente Volodymyr Zelensky, citado pelo ‘POLITICO’, durante a sua primeira visita oficial à Irlanda.

Zelensky recebeu apoio explícito do taoiseach [primeiro-ministro] Micheál Martin, que reiterou solidariedade com Kiev e acusou Vladimir Putin de demonstrar “total indiferença ao valor da vida humana e às leis e normas internacionais”. O líder irlandês defendeu que o presidente russo “jamais deve ter permissão para vencer”.

Visita relâmpago coincide com negociações em Moscovo

A deslocação de Zelensky a Dublin incluiu uma ovação de pé nas duas câmaras do Parlamento irlandês e um encontro com a recém-eleita presidente da Irlanda, Catherine Connolly, conhecida pelas críticas à NATO. A visita decorreu em paralelo com a retoma das negociações em Moscovo entre Putin e o enviado especial do presidente dos EUA, Donald Trump, Steve Witkoff.

Zelensky revelou ter conversado com Witkoff na passada segunda-feira e aguardar um contacto após as conversações em Moscovo. No entanto, advertiu que não alimenta expectativas de um acordo rápido capaz de pôr termo definitivo aos ataques russos.

Garantias de segurança são condição essencial

O presidente ucraniano rejeitou como irrealistas todas as propostas de acordo que não incluam garantias de segurança claras, tanto dos EUA como dos aliados europeus — um compromisso que Trump se tem mostrado relutante em assumir.

“Temos de parar a guerra de tal forma que, dentro de um ano, a Rússia não volte com uma terceira invasão”, disse Zelensky, recordando a anexação da Crimeia e de zonas do leste da Ucrânia em 2014 e a ofensiva em larga escala lançada em 2022.

Irlanda defende responsabilização da Rússia

Micheál Martin argumentou que transformar um cessar-fogo em solução permanente exige que Moscovo suporte um preço punitivo pelos custos de reconstrução da Ucrânia. Isso passaria pela aprovação do plano da Comissão Europeia para utilizar fundos russos congelados, maioritariamente depositados na Bélgica. O líder irlandês manifestou esperança de que Bruxelas ultrapasse as objeções belgas no próximo Conselho Europeu.

Quando “a Carta das Nações Unidas é violada de forma tão brutal”, afirmou Martin, é necessária “uma dissuasão” e que o agressor seja responsabilizado pela devastação causada.

O taoiseach acrescentou que a reconstrução da Ucrânia terá um custo colossal e que não poderá recair apenas sobre os contribuintes europeus. “A Europa não começou esta guerra”, sublinhou.

Apoio irlandês reforçado, mas com limites

A Irlanda, que assumirá a presidência rotativa da UE no segundo semestre de 2026 e mantém uma política de neutralidade militar, aproveitou a visita para reforçar o seu apoio financeiro a Kiev. Martin assinou um acordo comprometendo o país a fornecer mais 100 milhões de euros em equipamentos militares não letais, incluindo material de desminagem, bem como 25 milhões de euros destinados à reconstrução de empresas energéticas ucranianas danificadas.

Sem indústria de defesa significativa e não sendo membro da NATO, a Irlanda recusou financiar a aquisição de armamento.

O país, com 5,4 milhões de habitantes, acolhe mais de 80 mil refugiados ucranianos, mas tem vindo a reduzir apoios habitacionais e sociais concedidos desde 2022, apesar da crescente onda de sentimento anti-imigração na Europa.

Questionado sobre eventuais receios quanto a uma diminuição do apoio irlandês, Zelensky afirmou não estar preocupado. Manifestou gratidão pelo facto de Dublin manter o seu contributo e realçou: “A questão não é o tamanho da ajuda. É a escolha.”

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