A corrida secreta aos bebés geneticamente modificados: proibição mundial não trava ‘obsessão’ de Silicon Valley

‘Wall Street Journal’referiu que estas iniciativas visam eliminar doenças hereditárias e, em alguns casos, potenciar características como o Qi, apesar de a criação de bebés geneticamente alterados ser proibida nos EUA e em grande parte do mundo

Francisco Laranjeira
Novembro 18, 2025
11:18

Empresas de biotecnologia do Silicon Valley estarão a desenvolver, em segredo, programas de edição genética de embriões para criar bebés geneticamente modificados em países onde esta prática é permitida, revelou o ‘Wall Street Journal’. O jornal americano refere que estas iniciativas visam eliminar doenças hereditárias e, em alguns casos, potenciar características como o quociente de inteligência, apesar de a criação de bebés geneticamente alterados ser proibida nos Estados Unidos e em grande parte do mundo.

De acordo com a publicação, a startup californiana Preventive terá conduzido experiências em locais como os Emirados Árabes Unidos, onde a edição embrionária é legal. A empresa — financiada por investidores como Sam Altman, CEO da OpenAI, Oliver Mulherin e Brian Armstrong, cofundador da Coinbase — negou estar a realizar tais procedimentos. O CEO Lucas Harrington afirmou que “não estamos a conduzir experiências de edição de embriões” e garantiu que não haverá ensaios clínicos sem provas de segurança.

O jornal referiu, no entanto, ter obtido correspondência sobre potenciais clientes e citou uma fonte anónima que afirmou que a empresa já discute “experiências de edição de embriões para um casal que sofre de doenças genéticas”. Armstrong defendeu publicamente a investigação embrionária como forma de corrigir doenças num estágio inicial, enquanto Mulherin declarou estar interessado em estudos que evitem patologias hereditárias.

Startups procuram características específicas

Além da Preventive, outras empresas — como a Manhattan Genomics e a Bootstrap Bio — estarão a explorar técnicas capazes de originar bebés com corações mais resistentes, níveis mais baixos de colesterol ou maior robustez óssea em jurisdições mais permissivas, como Honduras. A prática permanece controversa, sobretudo porque a edição genética embrionária pode provocar efeitos imprevistos e levantar dúvidas éticas profundas.

Outras companhias, incluindo a Orchid, a Genomic Prediction, a HeraBiotech e a Nucleus Genomics, comercializam ferramentas de triagem poligénica que avaliam o ADN de embriões para prever características ou riscos de doença. Estas empresas afirmam conseguir estimar atributos como altura ou inteligência, e contam com investimentos de figuras de Silicon Valley como Peter Thiel, Alexis Ohanian e novamente Brian Armstrong. Segundo o ‘Wall Street Journal’, Elon Musk terá recorrido à tecnologia da Orchid para avaliar embriões antes do nascimento dos gémeos que teve com a ex-executiva da Neuralink, Shivon Zilis.

Preocupações éticas e o precedente chinês

A edição genética antes do nascimento continua proibida para fins reprodutivos em praticamente todos os países. Recorde-se que o único caso conhecido de bebés geneticamente modificados ocorreu na China, quando He Jiankui anunciou em 2018 o nascimento das gémeas Lulu e Nana com ADN alterado para lhes conferir resistência ao HIV. O cientista foi posteriormente condenado a três anos de prisão.

Investigadores temem que as novas tecnologias possam ser usadas para o “aprimoramento” de bebés, reavivando práticas associadas à eugenia. Fyodor Urnov, do Instituto de Genómica Inovadora da UC Berkeley, alertou para os riscos de transformar “a vida numa experiência” guiada pelo capital privado. Marcel Chedas, do Centro de Fertilização In Vitro da UC, sublinha que “os bebés devem nascer como são” e considera a alteração artificial do ADN “perigosa”.

Empresas procuram jurisdições permissivas

As leis federais americanas impedem a edição embrionária, condicionam o financiamento e bloqueiam a aprovação de ensaios clínicos, o que levou algumas startups a deslocar parte da investigação para o estrangeiro. A Preventive avalia oportunidades nos Emirados Árabes Unidos, enquanto a Manhattan Genomics planeia instalar investigação nas Honduras. Estas localizações permitem que empresas sediadas nos EUA sirvam clientes americanos recorrendo a laboratórios estrangeiros.

Nenhum país autoriza explicitamente a edição hereditária que resulte em nascimentos, mas algumas nações, como o Reino Unido e a China, permitem investigação limitada. Segundo o ‘Wall Street Journal’, Brian Armstrong terá sugerido que a Preventive avançasse em segredo e apresentasse ao mundo um bebé saudável geneticamente modificado como facto consumado — uma afirmação que os seus representantes negam.

Desigualdades e o risco de um “primeiro super-bebé”

Para além das questões legais, subsistem obstáculos científicos, uma vez que a edição genética permanece imprecisa e pode gerar consequências inesperadas. Há ainda o risco de que esta tecnologia se torne acessível apenas a famílias mais ricas, acentuando desigualdades sociais e criando vantagens biológicas difíceis de contrariar.

Apesar das barreiras, especialistas admitem que o primeiro bebé geneticamente modificado em contexto privado poderá já ter nascido fora dos Estados Unidos, num laboratório sem escrutínio público.

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