A disseminação de bactérias multirresistentes representa uma ameaça crescente para a saúde pública em todo o mundo, alertaram especialistas durante o 19º Congresso Nacional de Laboratórios Clínicos (LABCLIN 2025), organizado pela Sociedade Espanhola de Medicina Laboratorial (SEMEDLAB). De acordo com ‘El Economista’, se esta propagação não for travada, as infeções poderão provocar mais mortes do que o cancro até 2050.
Foi destacado o impacto que têm as bactérias resistentes a antibióticos na eficácia dos tratamentos, no aumento da mortalidade e nos custos hospitalares. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), estas infeções poderão causar até dez milhões de mortes por ano em todo o mundo, caso não sejam reforçadas as medidas de controlo, prevenção e desenvolvimento de novos fármacos. Ainda conforme o El Economista, um relatório da OMS de 2024 sobre as prioridades de desenvolvimento de novos antibióticos identificou bactérias como Acinetobacter, Enterobacteriaceae e Mycobacterium — bem como Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus — como prioritárias em segundo nível. O relatório ressalta ainda que algumas destas superbactérias podem apresentar um maior número de determinantes de virulência, o que lhes aumenta a patogenicidade.
Luis Martínez, chefe do Departamento de Microbiologia do Hospital Universitário Reina Sofía, em Córdoba, afirmou que “estamos numa verdadeira corrida contra o tempo. Embora vários novos antibióticos eficazes contra algumas dessas superbactérias tenham se tornado disponíveis nos últimos anos, já foram identificadas variantes resistentes mesmo às terapias de última geração”.
A situação em Portugal
Em Portugal, os números mais recentes apontam para uma carga significativa da resistência antimicrobiana. Um relatório sobre “O peso da resistência antimicrobiana (RAM) em Portugal” estima que em 2021 se registaram cerca de 1.950 mortes por infeções atribuíveis à RAM, e 8.390 mortes associadas à mesma. Além disso, um estudo anterior assinalava que até 2050 poderão ocorrer mais de 40 mil mortes no país devido a infeções por bactérias resistentes, se não forem reforçadas as medidas de prevenção. Outro levantamento identificou que Portugal registava cerca de 1.160 mortes anuais por infeções causadas por bactérias resistentes.
Realidade em Espanha
Em Espanha, a situação foi descrita como “igualmente preocupante”. O Plano Nacional de Combate à Resistência aos Antibióticos (PRAN), promovido pelo Ministério da Saúde de Espanha e pela Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos de Saúde (AEMPS), estima que as infeções causadas por bactérias resistentes resultem em mais de 4 mil mortes por ano em Espanha. Além disso, geram custos adicionais para o sistema de saúde que ultrapassam 150 milhões de euros. Apesar de o consumo de antibióticos ter diminuído consideravelmente nos últimos anos, o plano insiste na necessidade de manter vigilância ativa, promover o uso responsável e reforçar a investigação para evitar retrocessos.
Conclusão e perspetivas
A perspetiva de que as infeções por bactérias multirresistentes possam tornar-se mais mortíferas do que o cancro coloca-se como um desafio urgente à escala global. A combinação de vigilância reforçada, estratégias de prevenção e investigação intensificada de novos antibióticos torna-se fundamental. Em Portugal, o panorama actual obriga a uma mobilização continuada para evitar que a resistência antimicrobiana se torne uma crise de saúde pública de maiores proporções.














