Os bombeiros da Moita, no distrito de Setúbal, estão a tornar-se parteiras involuntárias. Em 2025, já ajudaram em 15 partos, um número sem precedentes que, segundo o comandante Pedro Ferreira, não é motivo de orgulho, mas de preocupação. “O sítio certo para nascer é uma maternidade”, afirmou o responsável ao jornal espanhol ‘El País’, sublinhando que este é um recorde que preferia não voltar a alcançar.
Apesar de as grávidas da Moita terem o hospital do Barreiro a apenas dez minutos de distância, a maternidade encerra quase todos os fins de semana. “Fecha quase todos os fins de semana, por vezes durante vários dias”, lamentou o comandante. Outros hospitais próximos, como o de Almada, também suspendem internamentos sem aviso prévio. “Às 3h05 da manhã recebi um e-mail a informar que iriam encerrar a maternidade até às 8h30. Isto é arcaico”, criticou Pedro Ferreira.
Face a esta realidade, os bombeiros voluntários, que trabalham em condições precárias e com baixos salários, acabam por ser chamados a desempenhar funções médicas. O último parto assistido ocorreu a 6 de outubro último, numa área de serviço da autoestrada A33, quando a ambulância não conseguiu chegar a tempo ao hospital de Setúbal.
O aumento dos partos em ambulâncias — 35 em todo o país este ano, cerca de 22% dos registados fora de unidades hospitalares — é visto como um reflexo do declínio do Serviço Nacional de Saúde. De acordo com o jornal do país vizinho, os cortes impostos durante o período de resgate financeiro fragilizaram um sistema que fora motivo de orgulho nacional. Embora algumas medidas tenham sido revertidas após 2015, a crise agravou-se com a pandemia, e a falta de profissionais continua a afetar o sector público.
A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, enfrenta críticas crescentes após a morte de uma mulher grávida de 36 anos e do bebé, o que intensificou o debate sobre a falta de recursos e de planeamento no sistema.
“A vida não espera”
Para os bombeiros, cada parto é uma experiência emocional e arriscada. “É um acontecimento muito especial e significativo ajudar alguém a vir ao mundo”, descreveu Hugo Rodrigues, um dos voluntários. Num dos casos mais difíceis, a equipa encontrou uma mulher em trabalho de parto à porta de casa, sob chuva intensa, com o marido desmaiado. “O segundo bebé estava em paragem cardíaca e conseguimos reanimá-lo”, relatou.
Segundo Pedro Ferreira, as razões para o aumento dos partos fora do hospital são múltiplas: o encerramento frequente de maternidades e o perfil da população local, onde muitas grávidas imigrantes não recebem acompanhamento pré-natal. “Tivemos o caso de uma mulher guineense que desconhecia estar grávida. Ligou a queixar-se de dores abdominais e acabou por dar à luz”, contou o comandante.
Paulo Medina, outro bombeiro da corporação, já participou em três partos. “Fico feliz por saber que trouxe três bebés ao mundo, mas é daquelas coisas que preferia evitar. Naquele momento, temos duas vidas nas nossas mãos”, resumiu.
Para Pedro Ferreira, a inevitabilidade destas situações é o reflexo de um país onde, cada vez mais, os bombeiros fazem o que não lhes compete. “No dia em que algo de mau acontecer e um bebé morrer, todos cairão sobre nós. Não quero os meus homens na televisão nesse dia; serei eu a enfrentar as consequências”, concluiu.












