Senhorios recorrem à inteligência artificial para maquilhar casas degradadas e enganar potenciais compradores

A utilização de ferramentas de inteligência artificial (IA) no mercado imobiliário está a levantar sérias preocupações sobre transparência e publicidade enganosa. Senhorios e mediadores imobiliários estão a usar plataformas digitais para transformar fotografias de casas em mau estado em imagens e vídeos que exibem habitações impecáveis, mas que pouco têm a ver com a realidade.

Executive Digest
Novembro 3, 2025
18:26

A utilização de ferramentas de inteligência artificial (IA) no mercado imobiliário está a levantar sérias preocupações sobre transparência e publicidade enganosa. Senhorios e mediadores imobiliários estão a usar plataformas digitais para transformar fotografias de casas em mau estado em imagens e vídeos que exibem habitações impecáveis, mas que pouco têm a ver com a realidade.

Aplicações como o AutoReel permitem gerar, de forma rápida e gratuita, vídeos promocionais com narração, mobiliário virtual e iluminação artificialmente aperfeiçoada. Esta tecnologia, já amplamente utilizada por corretores nos Estados Unidos, Nova Zelândia e Índia, consegue transformar simples fotografias estáticas em vídeos de alta qualidade em apenas alguns minutos, com a produção diária estimada entre 500 e 1000 vídeos de anúncios.

De acordo com a revista Wired, o vazio legal em torno destas práticas está a gerar um número crescente de queixas por parte de inquilinos e compradores que se dizem enganados ao visitar os imóveis presencialmente. A ausência de regulamentação clara sobre o uso da IA em imagens de propriedades abre espaço para manipulações visuais que, embora sofisticadas, podem configurar publicidade enganosa.

Um dos casos que mais atenção despertou foi o de Elizabeth, uma proprietária do estado norte-americano do Michigan, que ao procurar casa reparou em “escadas que não levam a lado nenhum” e em luzes “caricaturais” nas imagens publicadas online. Ao comparar dois anúncios da mesma habitação, percebeu que as fotografias geradas por IA tinham removido armários de cozinha, alterado janelas e até substituído o pavimento por relva digital. A sua denúncia no Reddit tornou-se viral, reunindo milhares de reações e acusações de fraude publicitária.

Situações semelhantes repetiram-se noutros pontos do país. Em Manhattan, um modesto apartamento apareceu anunciado como um loft de luxo, enquanto em Detroit uma casa degradada foi apresentada com um “telhado novo” criado digitalmente. Estes exemplos levaram a Associação Nacional de Mediadores Imobiliários (NAR) a alertar que o enquadramento legal das imagens geradas por IA continua “nebuloso”, defendendo que o seu uso deve ser claramente identificado, tal como acontece com a decoração virtual. O não cumprimento dessas normas pode resultar em multas ou processos judiciais por publicidade enganosa.

Apesar das críticas, muitos profissionais do setor argumentam que os benefícios da IA são demasiado significativos para serem ignorados. Jason Haber, cofundador da Associação Americana de Mediadores Imobiliários, questiona: “Por que pagar 500 dólares por decoração virtual quando posso fazê-lo de graça em 45 segundos?” Contudo, o próprio Haber alerta para o risco de despersonalização no setor: “A excessiva dependência da IA torna os corretores indistinguíveis uns dos outros. O profissionalismo e a criatividade não devem ser externalizados para as máquinas.”

Mesmo os criadores destas ferramentas reconhecem as suas limitações. O AutoReel afirma que os seus sistemas foram treinados para evitar a geração de características inexistentes, mas admite que ocorrem “alucinações ocasionais”, como a criação de mobiliário fantasma ou detalhes arquitetónicos falsos.

Entre os críticos, o fotógrafo imobiliário Nathan Cool defende que o fascínio visual não pode substituir a honestidade no processo de venda. “Os vídeos gerados por IA podem atrair o público online, mas os compradores de imóveis, que estão a fazer o maior investimento das suas vidas, não querem ser enganados antes mesmo de chegarem ao imóvel”, afirmou.

À medida que a IA se consolida no setor imobiliário, o debate sobre ética e regulamentação torna-se cada vez mais urgente. O desafio passa por equilibrar inovação tecnológica com a proteção do consumidor — evitando que a revolução digital transforme o sonho da casa ideal numa ilusão artificial.

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