Explicador. O que une a Rússia ao Estado Islâmico? As semelhanças nas táticas para colocar em xeque o Ocidente

Moscovo utiliza civis recrutados através das redes sociais para executar pequenos atos de sabotagem e espionagem — desde incêndios e envio de encomendas-bomba a filmagens de infraestruturas militares — com o objetivo de gerar instabilidade e medo

Francisco Laranjeira
Outubro 30, 2025
12:01

A guerra híbrida da Rússia contra o Ocidente assenta em métodos que recordam as estratégias terroristas do passado. Moscovo utiliza civis recrutados através das redes sociais para executar pequenos atos de sabotagem e espionagem — desde incêndios e envio de encomendas-bomba a filmagens de infraestruturas militares — com o objetivo de gerar instabilidade e medo.

O chanceler alemão Friedrich Merz acusou recentemente o Kremlin de conduzir uma “guerra híbrida” que combina meios militares, políticos, económicos e tecnológicos, diluindo as fronteiras entre paz e conflito. De acordo com especialistas citados pela ‘Euronews’, esta abordagem é comparável às táticas do grupo Estado Islâmico (EI), que também utilizou propaganda e desinformação para radicalizar indivíduos e fomentar o terror na Europa.

Criminosos e marginalizados como agentes de influência

Investigadores do Centro Internacional de Contra-Terrorismo (ICCT) afirmam que a Rússia recorre frequentemente a “agentes descartáveis”: pessoas socialmente vulneráveis ou moralmente complacentes, muitas vezes recrutadas online. Estes agentes são atraídos por recompensas financeiras ou por afinidades ideológicas, funcionando como intermediários em ações de espionagem e sabotagem.

O especialista Kacper Rękawek explica que Moscovo vê a guerra híbrida como “uma ferramenta estratégica”, utilizando criminosos como representantes na Europa — uma prática semelhante à do Estado Islâmico, que entre 2013 e 2019 recrutou extremistas e delinquentes para executar ataques em solo europeu.

Enquanto o EI mobilizava jovens muçulmanos marginalizados com promessas de pertença e propósito, a Rússia explora motivações ideológicas e económicas. Segundo o investigador Hans Jakob Schindler, do Projeto de Combate ao Extremismo, o “agente descartável” ideal combina vulnerabilidade social e afinidade ideológica, um perfil que facilita a manipulação.

O ICCT aponta ainda que Moscovo tem alargado o recrutamento a comunidades russófonas na Europa, incluindo paróquias da Igreja Ortodoxa Russa, cuja proximidade ao Kremlin é bem conhecida. O patriarca Cirilo I e outros líderes religiosos têm legitimado as ofensivas militares em termos espirituais, chegando a classificar a invasão da Ucrânia como uma “guerra santa” para proteger os valores ortodoxos do “globalismo ocidental”.

Tanto o Estado Islâmico como a Rússia usam a propaganda para manipular perceções e enfraquecer a coesão social. As campanhas de desinformação, reforçadas por ataques simbólicos e sabotagens pontuais, visam sobretudo a psicologia coletiva.

O especialista em ciberinteligência Christopher Nehring considera que o principal alvo dos ataques híbridos “é a mente das sociedades”. Embora reconheça a gravidade dos incidentes isolados, sublinha que o verdadeiro perigo reside na erosão da confiança pública e na disseminação do medo.

A resposta, defendem os analistas, deve passar pela construção de uma resiliência psicológica coletiva, evitando que a desinformação e o terror — sejam eles de origem estatal ou jihadista — ditem a estratégia e o rumo das democracias ocidentais.

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